Sorocaba, SP, 06 (AE) - O casal de holandeses Klass Doornink, de 43 anos, e Hendrika Doornink de Nass, de 32, tenta há quase cinco anos adotar três crianças brasileiras, mas esbarra na burocracia do processo de adoção.
As crianças foram escolhidas - são três irmãos, sendo duas meninas de 7 e 2 anos e um menino de 4, abrigados na Casa do Menor de Sorocaba, no interior de São Paulo -, mas a adoção ainda não foi autorizada. A entidade é mantida por uma instituição beneficente e cuida de 32 crianças de 0 a 6 anos.
Destas, apenas cinco podem ser adotadas, entre elas os três irmãos. A luta dos Doornink pela adoção custou ao casal de holandeses perto de R$ 40 mil. A maior parte da verba, cerca de R$ 28 mil, foi entregue à Neetherlands Intercountry Child Welfare Organization (Nicwo), uma das entidades holandesas especializadas em conseguir crianças para adoção em outros países. O dinheiro custearia a documentação das três crianças, despesas e taxas que teriam sido pagas ao governo holandês.
O casal está hospedado desde 17 de julho num hotel- fazenda de Araçoiaba da Serra, região de Sorocaba, esperando que a adoção seja autorizada.
Enquanto isso, arca com as diárias do hotel e outras despesas. "Se pudermos viajar com as crianças, terá valido a pena", disse Klass, auditor de empresas na Holanda. Os Doorninks não podem ter filhos, mas ajudaram a criar, nos últimos dez anos, três crianças holandesas de um parente de Hendrika, que ficou viúvo. Eles estão com 8, 14 e 16 anos e moram com o pai, mas ainda passam parte do ano com o casal. A experiência com essas crianças reforçou o desejo da adoção. Em dezembro de 1994, eles foram ao governo holandês se habilitar para o processo. A seleção das famílias é rigorosa, segundo Klass.
Durante um ano e meio, a vida do casal foi acompanhada por assistentes sociais do governo. Habilitados, foram à Nicwo para iniciar a procura das crianças.
Seguiram-se mais de dois anos de buscas, até o encontro dos irmãos em Sorocaba. Eles foram levados para o abrigo depois de terem sido abandonados pela mãe.
Antes de embarcar para o Brasil, contando com a adoção, o casal trocou de casa. "Fomos para uma mais ampla, com três quartos a mais para as crianças", disse Klass. Vizinhos e familiares fizeram uma festa antes da viagem, enchendo a casa de presentes para os "futuros filhos". Os Doorninks cumpriram o estágio de convivência de 30 dias com os adotandos, como exige a lei. As crianças ficaram hospedadas com eles no hotel de Araçoiaba da Serra.
Mas a adoção não foi autorizada no fim desse prazo, como eles esperavam, e os irmãos tiveram de voltar para o abrigo. O processo corre em segredo de Justiça. Como eles não falam português, é a proprietária do hotel, Sally Mônica Kaplan Rocha, que faz as vezes de intérprete.
A empresária acompanhou o período de convivência com as crianças e não entende porque a adoção ainda não foi consumada. "Sou mãe e deu para ver que as crianças superaram rapidinho o problema da língua e adoraram o casal", disse. "Em pouco tempo
eles estavam entendendo-se apenas com o olhar." Ela teme que a demora provoque a desistência do casal. "Fico preocupada com a imagem do Brasil lá fora." A menina mais velha passou da idade de permanência na Casa do Menor e, se não for adotada, terá de ser encaminhada para outra entidade.
Segundo a supervisora administrativa Cecília Aparecida da Silva, como os casais brasileiros só se interessam por recém-nascidos, as crianças mais velhas, ou são adotadas por estrangeiros, ou vão para outras instituições de menores. "Como não há vagas em Sorocaba, temos enviado as que passam da nossa faixa etária para outras cidades", disse.

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