Casa terapêutica abriga doentes mentais
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sexta-feira, 03 de outubro de 2003
Candice Dequech<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Oito internos do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz, em Curitiba, deixam hoje a instituição e passam a viver de maneira autônoma em uma casa no Jardim Paranaense, no bairro Alto Boqueirão. Essa experiência faz parte do projeto ''Residência Terapêutica para Pacientes com Transtornos Mentais'', fruto de uma parceria entre o hospital, Prefeitura e Núcleo Terapêutico Menossimons (Associação Menonita). O projeto foi implantado em setembro do ano passado, com a criação da primeira casa e a desospitalização de cinco pacientes. Amparada pela nova legislação de Saúde Mental, que prevê a desospitalização gradativa, essa é uma alternativa para os pacientes que têm uma certa autonomia, mas não têm família ou recursos financeiros para viverem fora da instituição.
Segundo Dagoberto Requião, diretor geral do hospital, a desospitalização, além de promover a reinserção social do paciente, ajuda na desocupação de leitos, o que pode também beneficiar outros pacientes em crises agudas, que geralmente ficam internados por cerca 28 dias. O custo, segundo Dagoberto, é o mesmo que o hospital tem com a internação. A diferença é que o repasse é feito direto à Associação Menonita, que administra a residência terapêutica. A psicóloga da Associação Menonita, Maria Aparecida Johnsson, que fará visitas diárias ao grupo, pretende descobrir as habilidades e talentos dos pacientes para que eles também possam desenvolver alguma atividade com remuneração.
O grupo terá acompanhamento diário de agentes comunitários, equipe de reabilitação psicossocial e cuidadores, que vão ajudar na casa com a alimentação e limpeza. A comunidade também é preparada para acolher esses pacientes, que terão o respaldo das unidades de saúde em caso de emergência. Lá, eles continuarão recebendo medicação gratuita e cuidados médicos. Durante os primeiros meses eles estarão sempre acompanhados dos cuidadores.
De acordo com Rosana Mariano, assistente social e gestora de reinserção social do hospital, os pacientes ficam muito dependentes depois de longos anos de internamento. ''Eles se sentem excluídos e com dificuldades para desempenhar qualquer função sozinhos'', disse. Antes da reintegração, os pacientes passaram por um perído de adaptação de 11 meses.
Ontem pela manhã, durante a despedida, o grupo se emocionou e festejou com a equipe médica do hospital. P.L, internado no hospital há 24 anos, conta que está muito feliz com o novo lar. ''Lá nós teremos mais liberdade. Tenho certeza que vai uma ótima experiência'', disse emocionado. ''Eu tenho muitos amigos, e gosto muito deles, até mais do que da minha própria família, que quase nunca me visitava. Tenho quatro irmãos, e nenhum deles vem me visitar.''
O hospital tem 442 leitos e 150 pacientes que estão internados há mais de dois anos. ''A evolução da pesquisa em saúde mental e do desenvolvimento de novos medicamentos fez com que o hospital integral ficasse apenas para os psicóticos graves, pacientes que não têm condições de permanecer na comunidade. Hoje, o Hospital Psiquiátrico é um centro ativo de tratamento que busca a recuperação no menor tempo e reinserção social. Essa segunda Residênica Terapêutica é um exemplo disso'', diz Dagoberto Requião.


