Casa de Lázaro vive último dia de notoriedade
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sexta-feira, 21 de abril de 2000
Por Renan Antunes de Oliveira 
Miami, 22 (AE) - A pequena casa do tio-avô Lázaro González, de pintura bege desbotada, na rua 2, viveu hoje (22) provavelmente seu último dia de notoriedade. Elián saiu do palco do drama carregado pelos delegados federais, ao amanhecer. Sem ele, a prima Marisleysis tornou-se a estrela, com uma notável característica: chorava cada vez que via uma câmera de tevê.
Um dos primeiros atos de protesto pelo resgate do menino ocorreu na cozinha, onde um bando de senhoras carolas rezavam o terço, ajoelhadas - em seguida, o lugar começou a encher-se de jornalistas e curiosos, desiludidos e queixosos.
"Que horror, que horror", gritava dona Sonia, uma vizinha que conseguiu sua vaguinha por volta das 7 da manhã. Personagem secundária no drama, ninguém lhe dava bola até que uma senhora de blusa azul rebateu com "não seja dramática, o menino está com seu pai". As duas se olharam com cara de bravas, mas desistiram do confronto. Dona Sonia entrou na sala e a de azul foi para o pátio.
A sala era o Q.G. da comunidade de exilados cubanos, dona Sonia entrou em seu elemento. Estavam lá dirigentes do movimento que manteve o impasse vivo desde que o garoto foi recolhido das águas quase morto.
Uma tevê de 40 polegadas revivia para a torcida a cena do policial com uma arma apontada para o pescador. De todas as ironias do caso, a maior foi Elián estar nos braços do mesmo homem que o salvou do mar.
O prefeito veio, vestido para jogging, deu um discurso inflamado falando mal do governo federal, foi aplaudido pelos assessores, deu entrevistas e sumiu - mas parte do povo ficou resmungando porque sua polícia, no fim das contas, ajudou os federais a resgatar o menino.
Lá pelas 7h30 da manhã, a prima começou a ter mais um de seus chiliques, combinando com a entrada ao vivo num noticiário nacional. O anticlimax: um cinegrafista bateu na cristaleira e derrubou alguns copos, obrigando-se a reiniciar a gravação. Deu tempo para a prima parar a choradeira e checar com uma amiga: "Meu cabelo está bom?"
Os chamados das emissoras começaram a trazer cada vez mais gente para a esquina da avenida Flager, cercando a casa. A turma fazia turnos para entrar, porque o pátio da casa é menor do que a pequena área de um campo de futebol. E já estava pra lá de lotado.
Do lado de fora, cerca de 200 pessoas se amontoavam em volta da cerca - de onde pendia, pendurada sabe-se lá por quem e para que, uma bandeira brasileira.
No pátio, Lázaro dava entrevista para uma rádio italiana. Um policial à paisana empurrava o carrinho de plástico de Elián, agora abandonado no meio do caminho, estacionando o bicho perto de uma geladeira velha.
O tal pescador? Não pensem que ele ia deixar de mostrar ao mundo sua importância histórica. Ele saiu da casa por volta das 8h, subiu numa banqueta e falou para a multidão: "Povo cubano! Temos que pensar no pequeno Eliancito. Nada de violências!" O apelo parecia meio sem propósito, porque, pelo menos nas primeiras horas e perto da casa, não houve nenhum incidente violento - exceto por um adolescente que jogou uma garrafa dágua para cima e levou uns tapas da multidão.
A massa tinha seus alvos próprios. Usava cartazes para ofendê-los: sobrou para Clinton, Fidel Castro, titia Janet Reno, o prefeito de Miami e para o pai de Elián.
A foto do menino era santificada: estava pregada até no peito de um enorme Cristo de gesso, no terreno de um vizinho. Numa hora daquelas, aparecia tudo quando era tipo de maluco: um crucificou-se, de mentirinha, numa enorme cruz de madeira, numa casa vizinha. Sem usar pregos, estava pendurado por algemas. Usava um megafone para anunciar o fim do mundo em primeiro de maio - e de quebra, dizia que Fidel Castro iria tirar o menino da família. Todo mundo ria dele.
Vendedores de água, coco gelado e bandeiras começaram a chegar
aparentemente mais cedo do que nos outros dias, prevendo bons negócios. No ar, um congestionamento de helicópteros, da polícia e das redes de tevê. Nas ruas, centenas de policiais, fechando todos os acessos. Carreatas desfilavam pela Flager e pela 27ª avenida, as mais próximas da casa de Elián - lá pelo meio dia, calculava-se em cerca de mil pessoas, não mais.
Nas calçadas, cada um que passava tinha uma opinião: "Este menino vai sofrer uma lavagem cerebral", disse don Fernando, dono de uma imobiliária nas redondezas, apoiando a tese do crucificado.
"A família do menino somos todos nós cubanos de Miami. Não devemos deixar o pai levá-lo de volta para Fidel Castro", opinião de um comensal da Reys Pizza.
O Burger King na frente da Reys era o Q.G. da polícia. Dezenas de policiais lanchavam, em turnos. Às vezes, alguma equipe saía correndo, de sirene ligada, para atender a alguma ocorrência - em geral, adolescentes chutando latas de lixo pelas calçadas. Uma lojinha de celulares da Flager estava reproduzindo numa impressora a foto da captura de Elián, tirada da Internet. Uma menina ia pregando a mesma foto nos postes perto da farmácia Walgreens. Carreatas e mais carreatas, buzinando em protesto.
Desiludidos com a solução política do caso, dois santeiros, vestidos de branco, queimavam ervas e diziam bruxarias na encruzilhada da Flager com a 27, onde um despacho de galinha morta tentava assustar quem passava. Uma esquina adiante, um grupo tentava bloquear a passagem dos carros. Um exilado cubano de quase 200 quilos, que se identificou como Fernando Fernandez Lopes, era dos mais ativos. Deu entrevistas chorando: "Eu me sinto culpado por terem levado o menino, deveria estar lá para defendê-lo com minha vida" - referência às promessas da comunidade de exilados, antes da invasão dos federais, de formar uma corrente humana para impedi-los de levar Elián. Na hora agá, estavam lá apenas 30 pessoas.
A bravata e algazarra do gordo Fernando Fernandez acabaram quando a polícia chegou para desbloquear a rua - ele foi um dos primeiros a sumir, correndo rua abaixo.
Pouco depois do meio-dia, uma notícia de última hora agitou a multidão nas calçadas: "Marisleysis está voando para Washington para ver o menino."
Assim, o circo esta mudando de endereço, mas parece que o show vai continuar.


