Curitiba - Uma casa de acolhimento em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), foi interditada provisoriamente, a pedido do Ministério Público (MP) do Paraná, sob acusação de dopar crianças e adolescentes. Segundo a promotora de Justiça Ana Lúcia Longhi Peixoto, funcionários da Fundação Francisco Bertoncello utilizavam medicamentos de uso restrito, como carbolitium, lamotrigina, olanzapina e neozine, para controlar o comportamento de quem se mostrasse avesso a ordens disciplinares.
A instituição abrigava 30 pessoas, com idades entre zero e 12 anos, que foram afastadas da convivência familiar – aguardam a reintegração aos pais biológicos ou, em último caso, a formalização do processo de adoção. Pelo menos dez delas tomavam remédios de forma contínua. A decisão foi proferida anteontem, pela Vara da Infância e da Juventude da cidade. Os meninos e meninas foram encaminhados para outras associações da capital.
"A gente já tinha um procedimento investigatório, que se iniciou a partir de uma denúncia anônima ao Disque 100, dando conta de que as crianças sofriam maus-tratos. Mas faltava uma análise mais apurada. Fomos então somando fatos: voluntários ou visitantes achavam estranho que elas estavam sempre dormindo e que não conversavam; depois chegou a notícia de que apareciam com sintomas na escola ou faltavam, enviando atestados médicos", contou Peixoto. A promotora esteve na escola onde os garotos e garotas estudam, para averiguar a situação. Em seguida, solicitou à Justiça a concessão de mandado de busca e apreensão na entidade. Primeiro, no dia 20 de maio, o MP apreendeu receitas médicas e planilhas de controle. Na sequência, em junho, recolheu todos os medicamentos.

ESPECIALISTAS

"Funcionários diziam: ‘você não está se comportando; vai querer tomar neozine hoje?’ Um menino contou que chegou a vomitar o medicamento, porque não gostava, e que então deram novamente. Ele tomou e acabou dormindo", afirmou. Durante as investigações, o MP buscou orientação de especialistas da área de saúde, que reforçaram os indícios de que a aplicação dos remédios contrariava protocolos do Conselho Regional de Medicina (CRM). Ainda de acordo com a promotora, houve paciente que ficou seis meses sem ver o médico e que, mesmo assim, teve sua dose aumentada, sem qualquer análise sobre o efeito colateral. "Por enquanto, a gente só atuou na área cível, para retirar as crianças do perigo. Agora vamos apurar a atuação de cada profissional e, se necessário, tomar as providências criminais", explicou.

FUNDAÇÃO

A fundação informou, via assessoria de imprensa, que até o momento não obteve acesso ao processo judicial e se disse pré-julgada. Também ficou de se manifestar por meio de seus advogados tão logo tiver conhecimento do teor da ação. Hoje, a Rede de Instituições de Acolhimento de Curitiba e Região Metropolitana (RIA), composta por 20 entidades, realiza um "ato pacífico", às 11h30, na Praça Nossa Senhora do Rosário, em Colombo, em solidariedade à casa. Os organizadores esperam reunir mais de 100 pessoas, entre amigos, funcionários e voluntários.

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