Nova York, 07 (AE) - A notícia agitou a rua King na sexta-feira: o doutor Jacob vendeu sua casa, a de número 15 no beco da Old House, para Bill e Hillary Clinton. No sábado, começou a romaria: vizinhos, turistas de Tóquio, Paris e até de Florianópolis (SC) subiram a ruazinha para ver a "Casa Branca II", antes mesmo da chegada de seus notáveis compradores. "Lugarzinho bacana", resumiu o advogado catarinense Waltoir Menegoto.
O futuro ninho dos Clinton custou US$ 1,7 milhão. Um empresário amigo do presidente é avalista, porque o homem está endividado, ainda pagando seus advogados no rolo de Monica Lewinsky.
Chappaqua (pronuncie xápacua) ficou orgulhosa da escolha dos Clinton para seu domicílio eleitoral, embora ela tenha sido fruto de uma complicada logística política e legal.
A casa não é para ser um retiro presidencial. Foi comprada porque Hillary quer deslanchar sua carreira solo. Ela precisa de um endereço oficial para concorrer ao Senado pelo estado de Nova York, no ano que vem.
O povo não é bobo, tanto que às vezes o pessoal só diz "a casa da Hillary".
Ela ainda não confirmou a candidatura ao Senado, mas o negócio imobiliário é um forte indício que o fará.
A casa é branca, daí o óbvio apelido posto pela vizinhança. Trata-se de uma mansão construída no século passado, num amplo terreno arborizado, no fim de um beco sem saída.
Da rua principal, só se pode ver parte da fachada. Tem cinco quartos, quatro banheiros, duas lareiras, uma piscina. Ela está fechada e deve ficar assim enquanto os Clinton permanecerem na verdadeira Casa Branca, até 2001.
A mansão tem a conveniência de estar a 60 quilômetros da Big Apple, bom para quando a campanha começar. Fica no coração de uma área onde os republicanos são maioria; assim, a primeira-dama terá como treinar na arte de convertê-los ao seu partido, o Democrata.
De quebra, a compra da casa botou o lugar no mapa norte-americano, mesmo que ele já fosse um refúgio de milionários e celebridades. A cantora Vanessa Williams é a mais famosa filha do lugar. Mariah Carey, Michael Douglas e Glenn Close têm casa lá. Até agora, todos caminhavam pelas ruas na maior tranquilidade.
Com a chegada dos Clinton, tudo vai ser diferente. Espera-se a instalação do primeiro semáforo, para disciplinar o trânsito no centrão, o ponto bem na frente da lavanderia do seu Frank; e dele, os vizinhos esperam que troque aquela rota bandeira norte-americana hasteada na fachada de sua loja, por uma nova, para embelezar o pedaço.
Chappaqua tem 11 mil moradores. A maioria vive em mansões espalhadas em torno de lavanderia, localizada na melhor esquina da rua King. O centro é composto de uma fieira de restaurantes, butiques finas e lojinhas de antiguidades.
É possível ver estacionados numa mesma quadra carros como Jaguar, Mercedes, BMW, Land Rover, outro Jaguar, um Saab, outro Jaguar, um Porsche, um Ferrari, outro Jaguar; e só então algum modelo americano, provavelmente de algum jardineiro.
Tudo é caro na cidade. A padaria faz bolachinhas de cujo preço até milionário reclama; um deles ensaiou atos de protesto contra a confeiteira.
Ninguém bate a butique Grand Stuff em matéria de preços altos. O lugar tem duas vendedoras na estica, de nariz empinado para os turistas; vendendo mantas de seda a US$ 194 e suéteres a US$ 374.
"Estamos pensando em oferecer bolsas da nova grife da Monica Lewinsky", anuncia, maldosa, uma das vendedoras.
Os Clinton podem esperar uma recepção melhor na cidade. Vários locais estamparam cartazes improvisados dando boas-vindas aos dois, mesmo que eles só venham a aparecer em 2001.
Cynthia Metcalf, cabo eleitoral dos democratas na cidade, ficou empolgada. Acha que a presença deles vai ajudar nas próximas eleições municipais.
Vai ser um pouco difícil para os Clinton, saindo da frenética Washington, adaptarem-se ao ritmo da cidadezinha. O programa de domingo é futebol feminino na cancha da escola, com as mamães treinando as garotas.
Na segunda-feira, os maridos pegam o trem para ir trabalhar em Wall Street, enquanto as esposas levam as crianças para aulas particulares de japonês, karatê, esgrima e esqui.
Há quem se entedie no lugar: "Nosso melhor programa ainda é pegar o trem para Nova York", ensina Larry Stenmeyer, freguês do Café Chappaqua.

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