Carvalho recusou sugestão de FHC para se demitir
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sexta-feira, 03 de setembro de 1999
Por Sílvia Faria 
Brasília, 4 (AE) - Minutos antes de se dirigir ao que seria seu último encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso, na condição de ministro, Clóvis Carvalho não colocou o cargo à disposição, mesmo quando isso lhe foi sugerido. "Eu compreendo a decisão de ser demitido, mas não será a meu pedido", disse Carvalho a Fernando Henrique ao final da conversa da madrugada de hoje.
A conversa no Palácio da Alvorada não teve testemunhas. Começou por volta das 23h20 de sexta-feira, num tom de compreensão, com ambos, ministro e presidente, concordando com os prejuízos políticos causados pelo discurso de Carvalho, ocorrido na véspera, durante seminário do PSDB. Mas Fernando Henrique não disse, até minutos antes do final do encontro, que queria demitir o ministro, provocando a iniciativa deste.
"Ok, presidente. Me diga o que o senhor quer?", perguntou Carvalho, de forma direta, para concluir a conversa. "Gostaria que colocasse o cargo à disposição, que eu aceito", respondeu imediatamente Fernando Henrique, provocando reação imediata do ministro. "Tudo bem, mas não será a meu pedido." O presidente acabou, então, concordando em arcar com o ônus da demissão, sem um pedido formal encaminhado por Carvalho.
Ainda em Fortaleza, ao sentir pesar o clima de constrangimento criado por seu discurso, já durante almoço com o governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), Carvalho ligou para o presidente: "Presidente, estou voltando para Brasília, porque acho que precisamos conversar", disse da Base Aérea. "Acho bom", respondeu secamente Fernando Henrique.
Quando aterrissou na Base Aérea de Brasília, o ministro da Casa Civil, Pedro Parente, aguardava Carvalho, com expressão constrita e pesar na fala. "Clóvis, sua situação está complicada. O presidente me pediu...", disse, sem conseguir terminar a frase. "Não, Pedro. Não vou ouvir isso de você. Quero ouvir do presidente. Acho que depois de seis anos, mereço essa consideração", cortou Carvalho.
Em sua residência, em Brasília, o ministro ainda aguardou, na companhia de seu secretário-executivo, Milton Selligman, o final de encontro de Fernando Henrique com ministros militares, para só depois saber de sua demissão.
Ao falar com a AGÊNCIA ESTADO, minutos antes, ele disse que não sabia se seria demitido, embora já pressentisse o desfecho. "Não vou pedir demissão, porque acho que não fiz nada que justifique isso", afirmou Carvalho com convicção.


