Brasília, 29 (AE) - A cartilha contra a pobreza lançada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) estabelecendo um roteiro de metas sociais a serem alcançadas num prazo de 15 anos causou reação dos principais líderes políticos no Congresso.
Surpreendidos com a mudança de rumo do FMI, senadores e deputados da base governista passaram a defender uma revisão imediata das metas estabelecidas pelo fundo para o ajuste fiscal no Brasil.
A nova ordem anunciada pelo diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, reforçou uma tese tucana que vinha sendo defendida reservadamente dentro do Planalto. O líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF), foi o primeiro a quebrar o silêncio e pedir alívio no grande aperto financeiro que o País está passando para conseguir um superávit primário de R$ 20 bilhões nos sete primeiros meses de 1999. "Esse é um sinal extremamente positivo do fundo", comemorou Arruda. "Não tenho dúvidas que agora as metas estabelecidas pelo FMI passarão por uma revisão."
Ele lembra que o acordo fechado com o FMI passou no Senado num momento de crise, mas que a intenção é de reavaliar essas mestas, uma vez que não "dá mais para as sustentar". Mas
dentro do governo, a orientação é ter cautela absoluta ao se falar em revisão de metas.
"Ganhar credibilidade custa muito", adverte o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira. "A meta vai folgar com o crescimento da economia, o que deve acontecer no próximo ano."
Para Ferreira, o ajuste fiscal é uma política dura, mas necessária. "No início do ano, passamos por uma grande tormenta e superamos", adverte. "É preciso agora não aproveitar o discurso do FMI para rever metas." Ele avisa que o governo não tem medo da discussão antipobreza.
"Afinal, estamos contribuindo para acabar com a pobreza
ao colocar um fim na inflação", argumentou. "Não precisamos de cartilha de FMI para combater a pobreza; nós podemos até ensinar", ironizou.
Mas, no Congresso, o tom do discurso foi outro. Todos os partidos aliados - PFL, PMDB, PSDB e PPB - cobraram mudanças no ajuste fiscal que está sendo imposto ao Brasil. O presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), ironizou uma postura mais pragmática do ministro da Fazenda, Pedro Malan, diante das novas orientações do fundo. "Quando o Camdessus acerta, é o Malan que fica contra", disparou.
"Essa nova postura do FMI deve condicionar a política de apoio à execução de políticas sociais de erradicação da pobreza", defendeu o senador pefelista. Ele ainda chamou atenção para o projeto de combate à pobreza de autoria dele. "Coincidência ou não, tudo isso aconteceu depois que o ACM tratou do assunto; é ou não é?", comentou ACM, falando em terceira pessoa. Mesmo assim, ele não deixou de fazer críticas. "A conscientização do FMI veio tarde, já que a situação do Brasil e do mundo seria outra se essa consciência tivesse vindo mais cedo."
O presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), foi mais enfático. "Essa nova postura do FMI abre espaço para uma revisão de metas do ajuste fiscal", defendeu. "O Brasil não é um escritório de contabilidade em que se estabelece metas arbitrárias para milhões de pessoas", afirmo Barbalho. Analisando de forma positiva a mudança do fundo, ele acredita que o Brasil tem de aproveitar esta oportunidade. "Por que continuar com taxas de juros altas se agora há espaço para mudanças?"
Já o deputado Delfim Netto (PPB-SP) acha que as mudanças vieram tarde demais. "É uma revisão profunda da filosofia do fundo", analisou ele, acrescentando que isso irá refletir de forma prática. "É uma mudança tão profunda que não me assustará se, em dois dias, eles digam (sic) que não é bem isso que haviam falado", observou. "Agora, ficou claro de que é falsa a crença que o fundo tem o conhecimento científico inabalável", lamentou Delfim Netto, lembrando que isso custou ao Brasil muito caro, uma vez que desmontou a indústria nacional e a agricultura.
Na oposição, a nova ordem do FMI também foi comemorada. Para presidente nacional do PPS, senador Roberto Freire (PE), o fundo reconheceu, por meio de eufemismo, um grave equívoco. "Isso era chamado por nós de autocrítica", comentou Freire.
Para ele, esta é a oportunidade para rever o aperto financeiro. "Se o próprio FMI reconhece os seus equívocos, cabe agora abrir uma nova negociação para aliviar o ajuste", defendeu Freire.
O senador capixaba Paulo Hartung (ES) também elogiou a iniciativa do FMI. "Quando começamos a mostrar essas questões, tivemos dificuldades", lembra. "Agora, instituições externas observam os graves pontos negativos desse modelo." Já o senador petista José Eduardo Dutra (SE) acha que é preciso rever todo o acordo, e não apenas algumas metas.
"Parece até brincadeira: de uma hora para outra, todo mundo virou defensor dos pobres", afirmou.
Arruda ressalta que o primeiro a fazer o alerta para o FMI foi o presidente Fernando Henrique Cardoso, quando pediu, em Porto, Portugal, há um ano, que fossem revistas as políticas de apoio aos países em desenvolviumento.

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