Rio, 23 (AE) - Uma carta com a assinatura -falsificada- do acadêmico e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho, já agita a próxima eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL), na ressaca da sua última eleição, que esta semana tornou imortal o diplomata Afonso Arinos de Melo Franco. O pivô da polêmica é o economista Roberto Campos, que em 23 de setembro disputará com a escritora e ensaísta Bella Josef a vaga deixada pelo dramaturgo Dias Gomes e virou alvo da mensagem, contrária à sua eleição.
A carta de cinco laudas datilografadas chegou ao presidente da ABL, Arnaldo Niskier, na quinta-feira da semana passada, pouco antes da sessão. Como é praxe, Arnaldo Niskier comunicou seu conteúdo: Sobrinho, ou melhor, quem assinou em seu nome, anunciava seu voto contrário a Roberto Campos e pedia aos outros acadêmicos que o acompanhassem. "A reação de todos foi de estupor", contou hoje Niskier, que jura nunca ter acontecido algo semelhante, ao menos em seus 16 anos de imortalidade. "Todos aqui dentro sabem a dificuldade que é entrar para esta casa e consideram o voto precioso."
Diante do inusitado, Niskier consultou Barbosa Lima Sobrinho
por intermédio do secretário-diretor da ABI, Cícero Sandroni, e a autoria da carta foi negada, embora o voto contrário a Roberto Campos fosse confirmado. "O doutor Barbosa Lima preza a liberdade de cada acadêmico votar de acordo com sua consciência e não quer influenciar ninguém", disse hoje Sandroni, falando como porta-voz do presidente da ABI, que não quis dar entrevista sobre o caso. "Ele prefere outro candidato, mas essa posição é pessoal e por isso não fará campanha contra Roberto Campos."
Na ABI, há informação de que outra carta, desta vez pedindo o impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso, teria circulado, também sem que Barbosa Lima a tivesse escrito, assinado ou autorizado. "Muita gente admira as idéias dele, mas não quer ou não tem coragem de assinar o que escreve e usa seu nome para veicular o que pensa ou deseja", diz Sandroni. "Mas nada podemos fazer quanto a isso, a não ser contar com a confiança das pessoas em Barbosa Lima."
Sandroni esclareceu, porém, que Sobrinho assinou e concordou com o abaixo-assinado que circulou hoje em jornais cariocas em favor do Canecão. A mais tradicional casa de shows do Rio corre o risco de fechar por desentendimentos entre o proprietário do espaço, Mário Priolli, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dona do terreno onde está localizada.
De sua parte, o economista Roberto Campos não fala sobre o caso. "Não há o que comentar, já que o doutor Barbosa Lima nega a autoria e, mesmo que fosse diferente, era um direito dele", disse um assessor de Campos, Olavo Luz. Até setembro, o pleito para a Academia, que tem só 39 eleitores, promete esquentar ainda mais.

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