"Carta do Ibre" diz que inflação no atacado não deve assustar
Rio, 10 (AE) - "Temor Infundado" é o título da "Carta do Ibre", o editorial da revista "Conjuntura Econômica" da FGV-RJ, cujo próximo número sai na próxima semana. O editorial afasta a hipótese de que a inflação registrada no atacado, por causa da desvalorização cambial, seja repassada inteiramente no varejo. O documento lembra que "é meridiano que qualquer desvalorização da moeda provoca imediata mudança de preços relativos, encarecendo os bens e serviços transacionárias com o exterior, relativamente aos não transacionáveis".
Segundo o editorial, 90% dos produtos do IPA-DI da FGV-RJ são "tradeables", contra 37% no IPC-DI. "Assim, supondo-se um componente médio de 30% de importados em tais bens e serviços, resulta que uma alta de 60% no preço do dólar teria impactos diretos de 16,2% no IPA-DI, contra apenas 6,7% do IPC-DI", acrescenta. O editorial lembra que este fenômeno aconteceu em desvalor izações anteriores, como em 1980 e 1983. O inverso aconteceu no período em que o real esteve valorizado (1994 a 1997) perante o dólar - os preços no varejo aumentaram 131,3%, enquanto os de atacado aumentaram 82,5%. "A lição a reter é relativamente simples", conclui o editorial. "Numa economia pequena e aberta ao exterior, a médio e longo prazos, a taxa de inflação depende, essencialmente, da taxa de desvalorização cambial (e não do nível da taxa de câmbio, pois nesse espaço de tempo a maior parte dos bens e serviços produzidos internamente, tanto os de atacado quanto os de varejo
enfrentará necessariamente a competição internacional".
Real - A "Carta do Ibre" adverte que é "fundamental" investigar em que medida o real pode manter-se nos próximos meses. Mas, ao invés de acompanhar o descompasso entre preços no atacado e varejo, a carta argumenta que o importante é verificar se as políticas monetária e fiscal estão definidas para manter a estabilidade cambial, se a economia está operando com pleno emprego de fatores de produção - o que levaria a uma inflação de procura - e se existe a indexação monetária.
O editorial da revista lembra que no Brasil, este último fenômeno foi extinto com o Plano Real. "Cabe esperar um baixo pass-through entre preços no atacado e varejo, bem como impactos inflacionários apenas transitórios nos casos de repique de preços agrícolas". O fato de a economia brasileira estar "muito aquém" do pleno emprego também ajuda a conter a inflação, de acordo com a análise da carta. A capacidade ociosa da indústria chegou a 18%, em média, em outubro, segundo dados da Sondagem Conjuntural do IBRE/FGV, e o PIB real está estagnado há dois anos.
"A probabilidade de acréscimo de custos, detonados pela desvalorização da moeda e repiques de preços agrícolas e de commodities externas provocarem inflação da demanda é, virtualmente, nula", analisa o artigo. Quanto ao primeiro fator enumerado, segundo a revista, tanto a política cambial quanto a fiscal estão sendo operadas para evitar a inflação. "Passadas as turbulências na área de preços, nada indica que a inflação não possa cair, permanecendo dentro das metas dogoverno para 2000 e 20001", prevê a "Carta do Ibre".





