Brasília, 23 (AE) - Uma carta anônima, entregue ao presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, Francisco Graziano (PSDB-SP), denunciou que trabalhadores rurais se estão armando no interior de Minas Gerais, por causa de uma disputa interna entre o Movimento de Libertação dos Trabalhadores Sem-Terra (MLST) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Ontem, o Congresso começou a movimentar-se para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista para investigar as ações do MST.
A carta, segundo Graziano, informa que o MLST estaria com 40 armas longas, rifles e fuzis AK-47 e AR-15, além de pistolas e revólveres. O conflito estaria ocorrendo, conforme a correspondência, na Fazenda Palmas da Babilônia, em Minas Gerais
próxima ao Assentamento Rio das Pedras, onde teria resultado na expulsão de 60 integrantes do MST pelo MLST. A carta afirma também que o MLST está sendo financiado por organizações de esquerda da França e da Bélgica e o MST também estaria recebendo dinheiro do exterior.
Ao fazer a denúncia, Graziano chegou a propor a criação de uma subcomissão para investigar o armamento no campo. "No momento em que o presidente Fernando Henrique faz uma campanha pelo desarmamento, aparece uma denúncia como essa", observou. "Temos de começar o desarmamento pelo campo."
Graziano desistiu da subcomissão ao ser informado pelo líder da bancada ruralista, Abelardo Lupion (PFL-PR), de que já está circulando pelo Congresso um requerimento para a instalação de uma CPI mista para apurar as atividades do MST. Entre as ações, destaca invasões de propriedades produtivas e prédios públicos, sequestros, roubos e ameaças de morte, ligação da entidade com movimentos revolucionários de outros países e o envio ilegal de recursos para financiar o MST.
Lupion informou que amanhã (24) deverá ter o número suficiente de parlamentares para a instalação da CPI e a campanha para colher as assinaturas no Senado deve ser intensificada na próxima semana. O objetivo é instalar a comissão em agosto, disse ele.
Crítica - As lideranças do MST em Minas Gerais não foram encontradas para comentar as denúncias. Dirceu Boufler, coordenador do movimento no Paraná, criticou a intenção da bancada ruralista de abrir uma CPI contra o MST. "Eles deveriam é investigar a ação da Polícia Militar no Paraná", afirmou, referindo-se às operações policiais de reintegração de posse de 23 fazendas do Estado, feitas em maio, que resultaram em várias denúncias de violência contra os sem-terra.
A intenção de instalar a CPI também foi criticada por deputados da oposição que integram a Comissão de Agricultura. "Os representantes dos latifundiários estão tentando justificar o injustificável", disse João Grandão (PT-MS). Segundo ele, o problema maior está na política fundiária do governo, que estaria provocando tensão no campo. "Nunca vi integrantes do MST armados", afirmou Grandão.
"O que temos é que fazer uma CPI para ver o destino do dinheiro da reforma agrária no País." O deputado afirmou ainda que vai tentar, via regimento interno da Câmara, formar uma subcomissão de fiscalização com esse objetivo.
Para o deputado Geraldo Simões (PT-BA), "os parlamentares governistas querem fazer coro ao discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso, que ontem citou o MST na tentativa de superar sua autoridade abalada", afirmou o deputado. Segundo ele, o PT é favorável à investigação da violência no campo de um modo geral e, para isso, lembrou, a Câmara já tem subsídios de uma CPI, realizada em anos passados.
Paraná - A Comissão de Direitos da Câmara ouvirá, amanhã
o policial militar do Paraná Antônio Cardoso de Meira, que denunciou, em uma fita de vídeo, o despejo de sem-terra no Estado. As cenas, exibidas na televisão no início da semana, mostram imagens de violência, maus-tratos e humilhações contra acampados. O vídeo revela, ainda, treinamento de policiais em operações antiguerrilha.
O soldado Meira está sob os cuidados do programa de proteção à testemunha do Ministério da Justiça e foi trazido para Brasília, com a família, por medida de segurança. O depoimento de Meira será acompanhado por representantes ingleses e holandeses da Anistia Internacional.

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