Carta de Caminha será centro das atenções em exposição
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Jair Rattner 
Lisboa, 03 (AE) - A carta escrita por Pero Vaz de Caminha relatando ao rei D. Manuel a descoberta do Brasil será o centro das atenções da principal exposição que vai comemorar a descoberta do Brasil. Em torno da carta será organizada a mostra Brasil - 500 Anos de Artes Visuais, em São Paulo, que permanecerá aberta de abril até o fim de agosto do próximo ano.
O acordo para a ida da carta para o Brasil foi fechado terça-feira em Lisboa, por meio de um acordo entre a Associação Brasil 500 Anos de Artes Visuais, criada pela Fundação Bienal, e a Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses.
"A carta vai ficar em São Paulo até setembro e depois vai percorrer as capitais históricas do Brasil até o fim do ano, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília", conta Joaquim Romero de Magalhães, presidente da comissão portuguesa. Segundo o acordo, a responsabilidade pela conservação e segurança da carta durante toda a estadia no Brasil é da associação brasileira.
Junto com a carta, serão expostos onze quadros feitos pelos mais importantes artistas contemporâneos portugueses tendo como tema o texto de Pero Vaz de Caminha. Pintores como Júlio Resende
Júlio Pomar vão apresentar sua visão da carta de Caminha.
"A exposição estará dividida em dez núcleos temáticos e vai mostrar toda a história da arte visual desde o período pré-Cabral até hoje", afirma Edemar Cid Ferreira. Os módulos, cada um com 5.000 metros quadrados, vão incluir a arqueologia, artes indígenas, afro-brasileiras, os três períodos em que se pode dividir a arte brasileira - os séculos 17 e 18, como o barroco, o século 19, em que se afirma a nacionalidade, e o século 20, do modernismo ao contemporâneo -, arte popular, as imagens pintadas por pacientes psiquiátricos e o Brasil visto de fora.
Entre as peças em exposição, será possível ver desde a cerâmica pré-cabralina, a arte plumária indígena, obras do barroco brasileiro, pinturas dos modernistas, fotografias e pinturas contemporâneas. As obras virão de museus e coleções particulares do Brasil e do exterior.
Segundo Edemar, será a maior mostra do conjunto da arte produzida no Brasil. "É a primeira exposição desse âmbito organizada pela iniciativa privada no Brasil. Vai ser importante internamente para elevar a auto-estima dos brasileiros e mostrar ao Brasil um pouco de sua história."
De cada um dos núcleos, será elaborado um catálogo ilustrado com cerca de 350 páginas. "O objetivo é que seja uma enciclopédia em dez volumes a respeito das artes visuais brasileiras até hoje. Vai estar tudo lá. A bibliografia brasileira não tem um catálogo com o conjunto da arte do Brasil", diz Edemar.
Terminada a exposição, partes do acervo reunido serão mostradas pelo Brasil. "Esta exposição vai percorrer várias cidades brasileiras com mais de 500.000 habitantes. Estão sendo preparados vários resumos adaptados aos locais onde estarão expostos, que podem ser clubes de lazer, escolas universidades e bibliotecas", conta Beatriz Pimenta Camargo, do Masp.
Segundo Edemar, a exposição também será dividida para percorrer outros países. "Queremos expor o Brasil de maneira diferente do que é conhecido hoje. Mostrar uma nova imagem do país, que não é só carnaval e futebol."
Portugal é o primeiro país em que será possível ver a exposição. A Fundação Gulbenkian vai mostrar dois módulos da exposição, ocupando os seus dois museus, com os núcleos de arqueologia e de arte contemporânea. "Oferecemos a exposição e eles escolheram estes dois módulos". Edemar conta que por ser a capital do país descobridor, Lisboa vai ser a única cidade que terá a mostra no ano 2000.
O tamanho da exposição fez com que cada museu escolhesse apenas uma parte dela. O Metropolitan de Nova York optou pela arte barroca. O British Museum, de Londres, mostrará parte da arqueologia e parte da arte indígena. A National Gallery, de Washington, terá parte da arte afro-brasileira. O Jeu de Palme, de Paris, exporá a arte moderna brasileira e o Musée dArt Decoratif, de Paris, apresentará as imagens do inconsciente, pintadas por doentes psiquiátricos. A cidade do Porto, que em 2001 será Capital Européia da Cultura, vai expor a arte afro-brasileira e ainda estão em negociações as mostras em Cambridge e Oxford, na Inglaterra.
Para conseguir maior repercussão, estão sendo montadas comissões de honra em cada país. Nos Estados Unidos, fazem parte dela o ex-presidente Jimmy Carter, o ex-presidente do FMI Robert McNamara e o milionário David Rockfeller.
Em Portugal, a comissão inclui o ex-presidente Mário Soares e o ministro da Cultura. Na França, conta com o ex-ministro da Cultura Jack Lang, a condessa de Paris e François Trve, presidente da Renault.
"Queremos para a exposição o prestígio que essas pessoas têm nos seus países", afirma Edemar.
Dos R$ 15 milhões que custará a elaboração da exposição, Edemar diz que R$ 10 milhões deverão vir por intermédio da lei Rouanet. "O resto virá de contribuições dos governos municipais
estaduais e federal."


