Brasília, 07 (AE) - A Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) sugeriu ao Banco Central, em janeiro, a adoção de medidas que dessem liquidez ao mercado e visassem à liquidação de posições vendidas de bancos no mercado futuro de dólares. Em carta dirigida pessoalmente ao ex-presidente do BC, Francisco Lopes, e datada do último dia 14 de janeiro, um dia após a mudança no câmbio, a instituição também manifestou preocupação "em relação a uma crise sistêmica" que, segundo a BM&F, atingiria o mercado se as medidas não fossem adotadas. Com apenas dez linhas, a carta, obtida com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo, foi assinada pelo superintendente-geral da BM&F, Dorival Rodrigues Alves. Consta do texto que o motivo da manifestação ao BC é "sugerir a adoção de medidas que visem a liquidação de posições vendidas em face da rigidez em que esses mercados se encontram". Mais adiante, a preocupação: "Essa sugestão tem por base a preocupação dessa Bolsa em relação a uma crise sistêmica que atingirá o mercado como um todo, caso não haja adoção de mecanismos que possibilitem aos comitentes a reversão de suas posições".
Ontem, assessores do BC garantiram que todo o relatório do banco sobre o episódio, as justificativas para dar socorro aos bancos Marka e FonteCindam e a explicação sobre com que base legal atuou vendendo dólares às duas instituições serão esclarecidas e divulgadas até sexta-feira. Segundo assessores do presidente do BC, Armínio Fraga, o objetivo é dar satisfação à sociedade. Também era intenção do BC divulgar a carta da BM&F, antecipada pelo Estado. Em entrevistas publicadas ontem, o ex-presidente do BC, Francisco Lopes, e a assessoria da BM&F deram informações desencontradas sobre a carta. Enquanto Lopes garantiu ter recebido o documento, assessores da BM&F informavam que nunca tinha havido nenhuma carta. No entanto, o documento foi enviado diretamente a Lopes, que respondia pela presidência do BC. Na avaliação dos assessores de Fraga, a posição da Bolsa de negar que tivesse feito a sugestão ao Banco Central, ao mesmo tempo em que seu presidente garantiu que, em último caso, a própria BM&F poderia ter honrado as posições do Marka e do FonteCindam, "parece um temor de que venha à tona alguma fragilidade da BM&F".
No Palácio do Planalto, ontem, o porta-voz do governo, embaixador Sérgio Amaral, não quis falar sobre o assunto e disse que "só o Banco Central pode explicar". De acordo com o ex-diretor de Fiscalização do BC, Cláudio Mauch, o BC só atuou porque tinha uma base legal para fazê-lo. "Todas as operações tiveram parecer jurídico que as classificaram como legais e dentro da competência do Banco Central", afirmou o ex-diretor, que, segundo Lopes, foi responsável pela condução das operações. Mauch lembrou ainda que, naquele momento, a posição do governo era manter a banda cambial, ampliada um dia antes. "Os bancos estavam com dificuldade para zerar suas posições e o BC examinou cuidadosamente a situação do mercado, os reflexos que isso poderia ter e resolveu agir." Assessores de Fraga afirmaram que o episódio tem de ser analisado "com a cabeça daquela semana em que as tensões e a ansiedade eram muito grandes". Mauch lembrou que, na crise da ásia, em outubro de 1997, e da Rússia, em agosto do ano passado, o BC agiu da mesma forma. Ou seja, também atuou no mercado futuro de dólar e, ao contrário do que ocorreu este ano, teve lucro nas operações. "Quando se desvaloriza a moeda, é impossível não perder dinheiro", disse o ex-diretor.

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