Carroceiros sentem falta dos fretes mas resistem nos pontos
Sid Sauer
De Campo Mourão
Não é à toa que o Código de Posturas de Campo Mourão, aprovado em 1964 mas ainda em vigor, prevê multas a cavalos que andarem pela cidade em desabalada carreira. A cidade conta com dois pontos e cinco carroceiros oficialmente cadastrados na prefeitura. Um dos pontos fica no centro, em frente ao Clube 10 de Outubro, considerado o clube da elite da cidade. O outro fica em frente ao Mercado Municipal, também localizado em área nobre.
Isso aqui não dá mais nada, reclama o carroceiro João Dantas Monteiro, 63 anos, que trabalha no ramo há 22 anos. As pessoas preferem pagar R$ 20,00 para uma caçamba do que R$ 5,00 para o carroceiro fazer o mesmo serviço. Monteiro diz que mal consegue faturar um salário mínimo por mês e que sobrevive com a ajuda de duas filhas. Quem não tem um filho trabalhando para ajudar em casa acaba passando fome.
O mais velho entre os cinco carroceiros cadastrados de Campo Mourão, Monteiro lembra quando a cidade tinha três pontos com 10 carroças cada um fazendo os serviços. Éramos em 30 carroceiros e havia trabalho para todo mundo, recorda. Ele reclama da falta de apoio da prefeitura e dos vereadores e diz que não tem esperanças de voltar aos bons tempos. Rico só ajuda rico e não chama o serviço dos carroceiros, conta.
Anísio dos Santos, 58 anos, está no ramo há três anos. Ele pagou R$ 600,00 numa carroça quando perdeu o emprego que tinha num supermercado de Campo Mourão. O mercado fechou e tive que me virar, ressalta. No primeiro ano de trabalho, Santos diz que ainda conseguiu ir bem, mas reclama que os fretes sumiram de dois anos para cá. Já cheguei a ficar duas semanas sem ter frete nenhum, lembra. Mesmo assim, ele chega diariamente ao ponto às 7 horas.
O frete dos carroceiros custa entre R$ 5,00 e R$ 10,00. Cobramos R$ 10,00 só quando é muito longe, diz Santos. Mesmo assim, há quem pichinche. Aparece gente aqui querendo pagar R$ 2,00, mas isso não paga nem o remendo caso o pneu fure, explica o carroceiro. A maior procura é para o transporte de material de construção e de entulhos. Santos se queixa também da concorrência desleal de carroceiros que não são cadastrados na prefeitura.
Santos acha que a situação da categoria só vai melhorar se o município aprovar uma lei que restrinja o trabalho das caçambas motorizadas ao centro de Campo Mourão e que obrigue os serviços miúdos a serem atendidos pelos carroceiros. Só que isso não vai acontecer nunca. Apesar das reclamações e da falta de serviço, ele não pensa em abandonar a carroça. Se parar com esse trabalho, vou para onde?, questiona. -





