Washington, 14 (AE) - Considerado o mais tradicional e conservador estado do sul dos Estados Unidos, a Carolina do Sul é, no jargão dos estrategistas republicanos, o "muro de fogo" no processo de escolha de seus candidatos à Casa Branca, instransponível para políticos que ousam desafiar o nome preferido pelos líderes do partido para disputar a presidência.
No próximo sábado, no entanto, é o candidato da máquina republicana, o governador do Texas, George W. Bush, que pode ver seu projeto presidencial arder e virar fumaça na Carolina do Sul.
Embalado por sua arrasadora vitória de 18 pontos sobre Bush nas primárias de New Hampshire, no início do mês, o senador John McCain, do Arizona, parece estar em posição de batê-lo pela segunda vez consecutiva. O nova vitória do senador, especialmente se a margem for de mais de cinco pontos, daria um segundo impulso à candidatura insurgente de McCain, ampliaria as boas chances de sucesso que ele já tem nas primárias seguintes, no Michigan, e em seu estado natal do Arizona, no dia 22, e poderia levar a um espetacular descarrilhamento da campanha de Bush, que até poucas semanas atrás parecia imbatível. Já uma vitória mais apertada de qualquer dois candidatos não liquidará a candidatura do outro e apenas transferirá o campo de batalha para Michigan.
Os grandes financiadores da candidatura do governador do Texas já começaram a dar sinais de pânico e a cobrar resultados pelos US$ 70 milhões que ajudaram a bombear para os cofres da campanha - um recorde absoluto e três vezes mais do que McCain levantou até agora. Pesquisas de opinião divulgadas no fim da semana deram novos motivos de preocupação dos aliados de Bush. Uma enquete realizada pelo jornal Los Angeles Times colocou Bush apenas 2 pontos à frente de McCain - 42% contra 40% - num grupo de pouco mais de mil eleitores prováveis na Carolina do Sul. A diferença é menor do que a margem de erro da pesquisa e significa que os dois candidatos estão, na realidade, empatados.
Antes das primárias de New Hampshire, Bush tinha uma dianteira de mais de 20 pontos sobre McCain. Há 13% de eleitores indecisos e 5% dispostos a votar em Alan Keyes, um jornalista negro ultra- conservador e o único outro republicano ainda do páreo.
Em Michigan , é McCain que está na frente de Bush, com 43% contra 34%, segundo uma pesquisa com 600 eleitores prováveis realizada pelo jornal Detroit Free Press. O desfecho da votação na Carolina provavelmente será determinado pelo grau de participação dos eleitores.
Eleições primárias costumam atrair não mais do que 10% dos eleitores registrados. Bush continua a ser favorito entre os eleitores tradicionais do Partido Republicano no estado e no resto do país. O problema, para ele, é que, tanto na Carolina do Sul como em Michigan, os eleitores independentes e mesmo os democratas, podem votar nas primárias republicanas, bastando refazer seu registro eleitoral num prazo de 30 dias antes do pleito. Foram esses dois grupos que garantiram a folgada margem da vitória do senador em New Hampshire e as pesquisas mostram que dois terços deles pendem para McCain também na Carolina do Sul e em Michigan.
Bush tem um sério um problema adicional. Um político sem maior lastro, que pouco fez na vida antes de completar 40 anos e elegeu-se governador do Texas em 1994 graças, em grande parte, ao nome de seu pai e homônimo, o ex-presidente George H. Bush, ele está tendo dificuldade para conter a hemorragia de adeptos de sua candidatura que estão se bandeando para McCain, pela simples razão de que o senador - além de ser um candidato mais interessante, é herói nacional, diz o que pensa, apresenta-se como um reformista pragmático e é odiado pela direção de seu próprio partido - conseguir quebrar a aura de inevitabilidade que foi, até recentemente, a viga mestra e a principal razão de ser da candidatura de Bush à Casa Branca. "Se Bush não é mais inevitável, o que ele é?", perguntou o jornal The Washington Post, no domingo, no título de uma reportagem sobre o dilema em que o governador do Texas ficou diante da debandada de uma parte significativa de seus ex- simpatizantes.
A eventual retirada de Alan Keyes pode ajudar Bush, transferindo- lhe alguns votos da direita religiosa e moralista. Com as relações entre McCain e Bush crispadas por comerciais negativos, o senador procurou ganhar alguns pontos no fim de semana anunciado um fim unilateral aos ataques. Os candidatos encontram-se amanhã à noite para um debate.
Os demais desdobramentos da campanha - o cisma no Partido da Reforma e a saída de seu principal membro eleito, o governador de Minnesota, Jesse Ventura, no fim da semana, e a desistência, hoje, do magnata do setor imobiliário, Donald Trump, de se candidatar - não devem ter impacto sobre a briga pela candidatura republicana na Carolina do Sul.

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