Carne brasileira deve ocupar espaço dos argentinos no exterior
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 1999
por Eduardo Magossi 
São Paulo, 19 (AE) - Frigoríficos, pecuaristas e analistas ainda estão em dúvida sobre o tamanho do impacto da desvalorização cambial nas exportações brasileiras de carne bovina em 1999. Existem, hoje, previsões de crescimento nas exportações que vão de 10% até a 40%. Com o câmbio ainda não totalmente estabilizado, os participantes do setor dizem que ainda não conseguiram traçar um cenário mais seguro a respeito das exportações. Existe o consenso, contudo, de que o Brasil deve se beneficiar da desvalorização ante a carne argentina, cujos preços permanecem atrelados ao dólar. Victor Nehme, diretor da FNP Consultoria, é um dos analistas que acreditam que a desvalorização do real será um fator extremamente benéfico para as vendas externas de carne bovina. Nehme acredita que as exportações, em 1999, darão um salto de 40%, passando das 345 mil toneladas (equivalente carcaça) registradas em 1998 para 485 mil toneladas, um aumento de 140 mil toneladas. O analista acredita que o aumento da produção de carne bovina no Brasil, esperada em 200 mil toneladas em 1999, deverá também alavancar as exportações.
Se as expectativas de Nehme se confirmarem, será o primeiro ano em que o Brasil conseguirá exportar um volume expressivamente maior que a Argentina. Nos últimos anos, o Brasil vem registrando um volume de abate e exportação bem inferior ao argentino, apesar do rebanho brasileiro ser três vezes maior. Na Argentina, de um rebanho estimado em 51 milhões de cabeças em 1997, os abates totalizaram 12,2 milhões, 24% do total, com as exportações atingindo cerca de 450 mil toneladas. No Brasil, de um rebanho de 160 milhões de cabeças, os abates somam apenas 18% deste total, perto de 29 mil cabeças, e o total exportado ficando em 345 mil toneladas, segundo dados da FNP.
Um dos temores dos frigoríficos é que, com a desvalorização do real, as exportações de carne do Brasil aumentem e pressionem os preços mundiais. Segundo Rosa Mondelli Leonardo, assessora de exportação do Frigorífico Mondelli, isto já está acontecendo. "Foi uma medida imediata. Assim que o Brasil desvalorizou o real, o Mercado Comum Europeu também reduziu suas ofertas de preço para a carne brasileira", conta. Segundo ela, um corte como o colchão mole teve seu preço reduzido em US$ 300 por tonelada, caindo de US$ 3.600 para US$ 3.300. A assessora explicou também que o cenário externo está desfavorável para as exportações. "Com a crise na Rússia, este país praticamente parou de comprar carne da União Européia, que está com estoques elevados do produto. Por isso, eles vão reduzir as ofertas de preços para o Brasil para que a carne nacional não chegue na Europa mais cara", disse.
Ela disse também que outra medida do Mercado Comum Europeu foi aumentar o preço das licenças de importação dos países europeus de US$ 1.900 por tonelada para US$ 2.700 por tonelada, o que também deve contribuir para que as exportações brasileiras não registrem uma alta significativa. Para Arnaldo Priviatto, gerente de exportação do Frigorífico Bertin, o principal exportador de carne do Brasil, as exportações devem crescer 20% este ano, impulsionadas basicamente pela desvalorização cambial. "Certamente haverá pressão dos importadores para que o preço caia mas a desvalorização do real fez com que o mercado brasileiro ficasse mais atraente que o argentino", explica. Para Arnaldo Petroni, do Frigorífico Minerva, os frigoríficos exportadores devem ficar cautelosos para que não inundem o mercado de carne e derrubem os preços no exterior. "Os frigoríficos devem ter cuidado com o volume de carne que irão ofertar", disse.
Para Pedro de Camargo Neto, presidente do Fundo de Desenvolvimento para a Pecuária de Corte (Fundepec), as exportações brasileiras de carne crescerão, no mínimo, 20%. "A desvalorização deu mais competitividade ao País e, se ele souber investir em marketing, poderá chegar aos níveis de competitividade da Austrália e da Nova Zelândia", disse. Segundo ele, as medidas protecionistas que estão sendo tomadas pela União Européia não irão afetar as exportações brasileiras. "As medidas foram tomadas para que o Brasil não tome espaço da carne européia. O que vai acontecer é que as exportações brasileiras irão tomar o lugar das argentinas, que continuam atreladas ao dólar, e por isso mais caras", explica. A Argentina continua beneficiada, contudo, pela cota Hilton, fixada pelo Gatt, que permite que a Argentina exporte cerca de 28 mil toneladas de cortes superiores ante cerca de 5 mil do Brasil.
Para Rosa Mondelli Leonardo, do Frigorífico Mondelli, a questão do marketing é ainda muito importante. "O setor de carnes do Brasil não investe em marketing no Exterior, ao contrário dos argentinos. Não existe uma campanha para divulgar a carne bovina brasileira, o que, no longo prazo, é desfavorável", disse. O diretor da Associação Brasileiras das Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (Abiec), Mário Massito, procura ser mais ponderado. "Em 1998, as exportações brasileiras de carne cresceram, em dólar, mais de 30% apenas porque os preços da carne argentina estavam maiores. A desvalorização do real irá, com certeza, beneficiar o setor", disse. Porém, Massito disse que ainda é cedo para traçar um cenário para 1999. "Vamos esperar uma maior estabilidade cambial para elaborar estimativas", disse. Massito alertou, contudo, que se a desvalorização do real for muito grande, isto poderá prejudicar o setor pecuário. "O aumento das exportações não compensará o aumento dos insumos necessários para a pecuária", disse.


