Rio, 25 (AE) - O escritor Carlos Fuentes considera uma feliz coincidência a entrega do Prêmio da Latinidade acontecer na véspera do encontro de chefes de Estado e de Governo da América Latina, Caribe e União Européia. "Essa reunião está para a política como o prêmio está para a cultura, pois ambos reúnem os latinos europeus e americanos". No final da tarde, ele inaugurou uma exposição de seus livros na Academia Brasileira de Letras, ocasião em que foi saudado pelo presidente Arnaldo Niskier.
Lá estavam também a imortal Nélida Piñon, sua amiga, e Murilo Mello Filho, o mais novo membro da ABL, e seu editor brasileiro, Paulo Rocco. "Pela primeira vez alguém conseguiu reunir toda minha vida em um espaço tão pequeno", disse ele, agradecendo a homenagem.
Fuentes disse que é muito importante para um escritor mexicano ser o primeiro a receber o Prêmio da Latinidade. "A primeira fronteira latino-americana é a do México com os Estados Unidos e esta cultura se estende de lá até a Patagônia, com um jeito de ver o mundo, amar e até comer semelhantes, formando uma só civilização." Essa cultura, segundo ele, invadiu os Estados Unidos, onde vivem 30 milhões de pessoas que falam espanhol e influenciam profundamente a cultura americana. "Basta ver que, hoje, a salsa mexicana vende mais nos Estados Unidos que o catchup", comentou.
Seu último livro, A Fronteira de Cristal, que acaba de sair no Brasil, trata dessa influência recíproca das culturas latinas e norte-americana. Apesar de contar histórias sobre nove personagens mexicanos, ele crê que a situação é comum aos outros países do continente, pois dos 30 milhões de latino-americanos que vivem nos Estados Unidos há gente de todos os países. "Isso mostra a força da cultura latina, pois se já 30 milhões de pessoas falando espanhol em solo norte americano, não existe o mesmo tanto falando inglês na América Latina", explicou.
Para Fuentes, a função do escritor é manter a língua e a imaginação de uma cultura vivas, embora ele não se considere sua literatura engajada, "à maneira sartreana", explicou. "Mas quem faz literatura é o depositário da consciência e da cultura de um povo e não é por acaso que os dois maiores ditadores deste século, Hitler e Stalin, perseguiram primeiro os homens de letras".
Carlos Fuentes contou que esteve no Brasil pela primeira vez quando era bebê. Com os pais, chegou ao Rio no dia em que estourou a Revolução de 30. "Morei em Copacabana e a primeira língua que falei foi o português, embora já tenham esquecido completamente", contou ele. "Depois voltei várias vezes, trazido pela minha amiga Nélida Piñon ou pelo presidente Fernando Henrique, meu amigo de muitos anos."
Sua agenda no Brasil é movimentada. Amanhã (26) ele janta com o empresário Roberto Marinho, que receberá os acadêmicos franceses e brasileiros. No domingo (27), ele recebe o Prêmio da Latinidade na Academia Brasileira de Letras e, na segunda, almoça com os reitores do Rio de Janeiro e os acadêmicos a convite de Cândido Mendes, na Universidade que leva seu nome.

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