Carinho de mãe estimula memória
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de julho de 2000
Daniela Sandler Agência Folha De São Paulo 
Carinho de mãe é bom para a inteligência, segundo um estudo canadense que observou que filhotes de rato que recebem mais afagos das mães desenvolvem melhor suas capacidades ligadas à memória e à orientação espacial.
O estudo, feito na Universidade McGill, em Montreal, será publicado na revista Nature Neuroscience de agosto. Um dos autores, Michael Meaney, disse à reportagem que o princípio geral da pesquisa vale para seres humanos.
Os resultados não significam que ratos carentes sejam mais burros -podem ser apenas ansiosos, como sugere Gilberto Xavier, do Departamento de Fisiologia do Instituto Biológico da USP.
Além disso, afago demais nem sempre é vantagem. Filhotes que recebem pouco carinho são mais receosos, diz Meaney. Há condições em que isso é favorável -em ambientes violentos e empobrecidos, por exemplo. Não é preciso ter laços de sangue para ter os benefícios dos carinhos: filhos de ratas negligentes criados por mães atenciosas tiveram resultados igualmente bons.
Há, porém, um componente genético. Filhos de mães carinhosas criados pelas negligentes continuaram indo bem nos testes. Para Meaney, isso indica que alguns indivíduos dependem menos dos cuidados dos pais do que outros.
A criação compensou a genética desfavorável. É um tema delicado, diz Meaney. Dados sobre humanos indicam que substitutos funcionam. Se a mãe morre, o pai parece compensar sua falta, se souber lidar bem com a perda. É curioso que as fêmeas da linhagem atenciosa sejam justamente as mães dos indivíduos menos dependentes de cuidados.
A teoria da evolução indica que eles são um investimento melhor, pois seu comportamento sugere mais sucesso na fase adulta, propõe Meaney. Isso pode ser diferente com os humanos, entre os quais o investimento dos pais é alto, mas precisaríamos saber mais sobre outras culturas. Estamos muito presos ao padrão norte-americano contemporâneo. O estudo usou dois grupos de ratos: um de mães carinhosas, outro de negligentes. O carinho foi medido na frequência de cuidados como lambidas e limpeza dos filhotes, que tiveram a orientação e a memória espacial testadas.
O teste consiste em jogar os ratinhos num tanque de água opaca. Quando o bicho atinge uma plataforma submersa, é retirado.
O procedimento é repetido várias vezes. Como não dá para ver a plataforma, o rato tem de aprender a chegar até ela usando referências externas ao tanque -as paredes do laboratório, por exemplo. O rato tem de navegar, explica Xavier, que também pesquisa a relação entre circuitos nervosos e memória.
No estudo canadense, os ratos que receberam mais carinho demoraram menos para aprender e decorar o caminho até a plataforma.
A análise de seus cérebros revelou mais sinapses (conexões entre os neurônios) no hipocampo -região ligada à memória e à orientação espacial. Nos primeiros dias de vida, as células do hipocampo estão em intensa atividade. Daí a grande influência dos carinhos recebidos no período.


