Belo Horizonte, 23 (AE) - O governador de Minas, Itamar Franco (PMDB), mandou uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso por meio do cardeal-arcebispo de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes de Araújo. O texto que está nas mãos do "emissário da paz", porém, não tem nada de conciliatório. Itamar reitera as três exigências para dar início às negociações: a suspensão dos bloqueios de recursos, a devolução dos R$ 113 milhões retidos e o envio de retratação aos organismos financeiros internacionais sobre o risco de inadimplência do Estado.
Nas entrelinhas, o recado é o mesmo: o governo federal terá de ceder porque Minas não se dobrará às exigências da equipe econômica. D. Serafim foi convencido a levar a carta ao presidente segunda-feira, em reunião no Palácio da Liberdade que durou menos de 40 minutos e acabou por volta das 19 horas. Logo depois, Itamar e os assessores começaram a redigir a carta, entregue ao cardeal às 22 horas.
D. Serafim aceitou o papel de mediador no impasse a pedido do próprio presidente. Dia 12, após a fracassada visita dos ministros do PMDB a Itamar, Fernando Henrique telefonou ao presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Stefan Salej, e pediu a indicação de um nome neutro, para desarmar o governador e ser mediador entre as duas partes.
Durante a conversa foi Fernando Henrique quem lembrou do cardeal. Ser mediador em situações de conflito não é novidade para ele. Em junho de 1996, na greve da Polícia Militar de Minas
sua intervenção foi fundamental para o acordo e o fim do movimento que se alastrou pelo País, incentivando rebeliões das PMs de vários outros Estados.
Foi Fernando Henrique quem ligou para o cardeal. Mas o combinado com o presidente da Fiemg foi que a autoria do convite a d. Serafim fosse assumida pelo empresariado mineiro. Salej tratou de cumprir a tarefa e no carnaval deu entrevistas falando da preocupação do empresariado e sugerindo o religioso como mediador. Na quinta-feira após o feriado, em reunião com oito presidentes de federações do comércio e da indústria de Minas, a decisão oficial de convidá-lo foi anunciada.
O encontro entre d. Serafim e o governador foi agendado com a ajuda de secretários do governo. A Itamar, o cardeal propôs uma parceria, dizendo que os dois estavam do mesmo lado. Ele lembrou que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) prega, na Campanha da Fraternidade lançada semana passada, o combate aos juros altos e à política que causa desemprego e recessão.
Sem comentários - O cardeal saiu da reunião com a fisionomia mais fechada do que o de quando chegara. Mas aos jornalistas disse apenas que, no papel de mediador do diálogo, não poderia fazer comentários e contou que pretendia procurar Fernando Henrique, mas não sabia quando.
Até o fim da tarde, a informação oficial na Cúria Metropolitana era que a reunião entre d. Serafim e o presidente não fora agendada com o Palácio do Planalto. Segundo fontes ligadas ao cardeal, porém, ele e Fernando Henrique conversaram por telefone após seu encontro com Itamar.

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