Carambola pode matar doente renal crônico
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quarta-feira, 29 de maio de 2002
Brás Henrique Agência Estado 
Ribeirão Preto - Uma pesquisa iniciada em 1996 na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), mostra que a carambola tem uma neurotoxina (só atua no sistema nervoso) que pode levar os doentes renais crônicos à morte. Pacientes com insufiência renal estão proibidos de comer o fruto, o doce ou ingerir o suco de carambola, afirma o professor associado do Departamento de Bioquímica e Imunologia da faculdade, Joaquim Coutinho Neto.
Em 35 casos documentados com doentes nessa situação, o médico-assistente da Divisão de Nefrologia do Hospital das Clínicas, Miguel Moysés Neto, constatou sete óbitos, dois anteriores ao início do estudo. O problema de intoxicação é resolvido com hemodiálise.
A carambola é saudável, boa e rica em vitamina C e só faz mal às pessoas que tenham insuficiência renal, afirma Coutinho. Ele recomenda, ainda, atenção aos diabéticos que tenham lesão renal e epiléticos em tratamento. Moysés acrescenta que os pacientes renais não devem alimentar-se de carambola para não correr riscos.
A pesquisa começou quando Moysés recebeu um paciente que fazia diálise, de cerca de 54 anos, em agosto de 1996. Ele tinha sintomas estranhos, como confusão mental e soluços intratáveis. Após 36 horas, ele morreu. Os exames clínicos nada constataram.
O único dado era que o paciente havia tomado um suco de carambola antes de começar a passar mal. Moysés sabia que pesquisadores de Botucatu, em 1992, haviam citado que vários pacientes renais tiveram soluços quando um deles distribuiu carambolas aos colegas, antes de uma sessão. Os parentes nada apresentaram.
Suspeitava-se de que os frutos tinham agrotóxicos, mas não se pesquisou até a morte do paciente de Ribeirão Preto, que tinha a fruta no quintal, o que descartou a possibilidade do uso de agrotóxico.
Uma semana após a morte do paciente, Moysés atendeu outro que tinha tomado meio litro de suco de carambola. A hemodiálise o curou e o médico avisou aos demais que a carambola poderia ter uma toxina. Para confirmar isso, telefonou para Coutinho e pediu uma análise da fruta.
Coutinho fez teste com a carambola e 20 camundongos. Todos tiveram convulsões alguns morreram e outros tiveram epilepsia quando o suco de carambola foi injetado no cérebro. Porém, injetado no estômago, nada apresentaram.
A neurotoxina da carambola, ingerida por uma pessoa normal que come a fruta, é absorvida pela digestão, filtrada pelo rim e excretada, sem sintomas, diz Coutinho. Mas, se o rim não funciona, essa toxina é absorvida, concentra-se no sangue, atinge os neurônios em concentração maior e provoca soluços e convulsões.
A partir daí, intensificaram-se os estudos. Outros pacientes intoxicados foram atendidos, quatro morreram (de Divinópolis, Uberaba, São Paulo e Franca) os outros dois, um de Ribeirão Preto e outro de Franca, morreram antes do início da pesquisa. Um intoxicado grave morre até com o tratamento; a convulsão avançada é quase irreversível, explica ele.


