Cara do novo governo ainda está indefinida
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de outubro de 1999
Por ARIEL PALACIOS e DENISE NEUMANN (assinaturas obrigatórias) 
Buenos Aires, 22 (AE) - Se as pesquisas estiverem corretas, Fernando de la Rúa obterá uma grande vitória, fazendo 51% dos votos válidos. Mas a cara do novo governo ainda está indefinida.
Fontes diplomáticas observam que se pode formar no governo uma disputa semelhante a que existe (ou existiu) no Brasil entre os chamados desenvolvimentistas e os monetaristas. Como na Argentina praticamente não há política monetária por causa do modelo da paridade entre o dólar e o peso, os monetaristas são qualificados de ortodoxos e representam a linha que defende a necessidade de um ajuste mais profundo nas contas públicas, cujo resultado pode ser - no mínimo - uma saída muito mais lenta da recessão.
A cara do governo De la Rúa depende do resultado final das urnas: se ele ganhar com mais de 50% dos votos válidos, leva também um espaço muito importante para mover-se, diz Manuel Mora y Araújo, num encontro organizado pela Embaixada do Brasil na Argentina. O resultado na Província de Buenos Aires também é fundamental. Se o peronista Carlos Ruckauf derrota a candidata da Aliança, Graciela Fernández Meijide, o peronisma ganha força e a Frepaso perde prestígio político.
Roberto Bacman, do Centro de Estudos de Opinião Públicas (Ceop), diz que as principais preocupações da população são desemprego, corrupção e insegurança, que vieram justamente com o fim do Estado protetor.
"Há expectativa de que o novo governo atenda a esses anseios", observa, concordando com a avaliação de que esse atendimento é incompatível com planos de ajuste fiscal e corte de gastos.
Além do resultado das urnas, as preocupações políticas dos apoiadores de De la Rúa, tendem a influenciar o ritmo do governo. "Ele vai governar navegando num mar de eleições", lembra o editor do jornal Clarín, Ricardo Kivschbaum.
No próximo ano há eleições para a cidade de Buenos Aires - a qual deve candidatar-se Domingo Cavallo. No ano seguinte, todo o Senado será reeleito. Candidatos da Aliança a estes dois pleitos devem pressionar para que as medidas econômicas do governo não aprofundem a recessão e sim ajudem o país a sair dela. Os membros do governo Carlos Menem estão falando constantemente que o "pior já passou", tentando vender a idéia de que, se a situação piorar, será culpa do novo governo.
O candidato da Aliança ainda não anunciou nenhum nome de sua equipe e nem se pretende fazer uma reforma no número de ministérios, uma possibilidade apenas sugerida. Para a pasta da Economia, que vai comandar o tamanho do ajuste, o nome mais cotado é José Luís Machinea, um economista que conversa bem tanto com Raúl Alfonsín, ex-presidente do país e principal lider dos radicais, como com Chacho álvarez, líder da Frepaso e candidato a vice na chapa de De la Rúa, explica Carlos Pagni, do jornal ¶mbito Financiero.


