Washington, 12 (AE) - Filho e neto de almirantes, John McCain formou-se na Academia Naval de Anapolis "entre os cinco últimos colocados" - como conta na autobiografia A Fé dos meus Pais - e decidiu ser piloto da Marinha em parte por rebeldia. Não queria repetir a carreira do pai e do avô, que chegaram ao topo comandando navios.
Em 1967, foi para o Vietnã. Em sua 23º missão, depois de ter sobrevivido a um dos piores acidentes da Marinha americana, provocado por explosão e incêndio no convés do porta-aviões Forrestal - que matou 123 soldados -, McCain foi abatido depois de ter despejado as bombas de seu caça A-4 Skyhawk sobre Hanói.
"Interceptei um míssil Sam com o próprio avião", brinca ele hoje, numa de suas típicas tiradas de humor sobre a própria má sorte.
Com os dois braços e uma perna quebrados, foi capturado, levou dois golpes de baioneta e chegou quase morto ao "Hotel Hanói", o presídio militar do Vietnã. Só foi tratado porque os vietnamitas se deram conta de que tinham nas mãos o filho de um almirante, que poderiam usar politicamente. Antes de completar o primeiro de seus cinco anos e meio na prisão, recebeu uma oferta de libertação se assinasse um documento denunciando as ações norte-americanas.
Recusou-se e foi colocado na solitária, onde passou mais de um ano. Depois disso, assinou, sob tortura, uma confissão falsa e tentou matar-se duas vezes, por ter desonrado seu país. Quando foi libertado, em 1973, McCain tinha 36 anos e a cabeça branca.
Com a carreira militar comprometida em parte pelo estado físico - os ferimentos da guerra limitaram os movimentos de seus braços, a ponto de ele não conseguir pentear os cabelos -, assumiu a chefia do escritório de ligação da Marinha no Congresso e começou a preparar-se para a política.
Elegeu-se deputado em 1982 e senador dois anos mais tarde. Em 1986 e 1987, representou junto a reguladores federais interesses de Charles Keating, um banqueiro de quem se tornara amigo e recebera favores, sob a forma de dinheiro para seus fundos de campanha, e férias com a família numa ilha particular no Caribe.
Em 1989, quando o banqueiro quebrou, McCain virou personagem de um escândalo nacional com quatro senadores democratas, incluindo outro herói nacional, o astronauta John Glenn. Ele foi inocentado pela Comissão de Ética do Senado. Mas em seu livro escreve que sofreu mais com o episódio Keating do que com os anos de prisão no Vietnã.
A experiência ajudou a completar sua transformação num político com luz própria, que faz o próprio caminho e não hesita em aliar-se ao adversário quando considera a causa justa. Em 1996, para grande consternação dos líderes republicanos, deu cobertura política ao presidente Bill Clinton para a normalização das relações entre Estados Unidos e Vietnã.
Clinton, que fez de tudo para não ser convocado para o Vietnã, não poderia ter restabelecido os laços diplomáticos com Hanói sem a ajuda do senador do Arizona.
Em 1998, quando levantou a bandeira da reforma das leis sobre financiamento das campanhas eleitorais, McCain inaugurou um site na Internet no qual relaciona os projetos clientelistas em que deputados e senadores dos dois partidos desperdiçam centenas de milhões de dólares de dinheiro público.
Entre os projetos mencionados está o da produção de um submarino nuclear que a Marinha considera desnecessário, mas terá de comprar e acrescentar a seu arsenal porque o estaleiro onde o submarino é produzido garante milhares de empregos no Mississipi, o Estado do líder republicano no Senado, Trent Lott.
Há quem veja em McCain apenas a mais recente encarnação de um líder populista, ao estilo de Ross Perot. Cientistas políticos vêem no destemor e no otimismo de McCain traços de Teddy Roosevelt, um presidente republicano do início do século passado que se levantou contra o monopólio da Standard Oil em casa, comandou a ascensão dos Estados Unidos como potência no cenário internacional e terminou rompido com seu partido.
Outros buscam paralelos com Dwight Eisenhower, o comandante das forças aliadas na Europa na 2ª Guerra que presidiu os EUA na próspera década de 50. Marjorie Smith, uma deputada estadual democrata de New Hampshire, que ouviu o senador falar num comício em Durhman, dias antes das primárias, tem uma impressão talvez mais parecida com a da maioria dos norte-americanos que assiste a uma ascensão difícil de classificar, e por isso mesmo atraente, e vê nela muitas possibilidades.
"Não posso votar nele porque sou liberal e não concordo com a posição dele na questão do aborto", disse ela. "Mas você ouve McCain e pensa que esse é um político que poderia fazer o equivalente à viagem de Nixon à China em questões como o desperdício de gastos militares e os subsídios públicos dados às grandes corporações empresariais", acrescentou a deputada.

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