Captura de soldados faz xerife recordar Vietnã Da correspondente Monica Yanakiew
Washington, 01 (AE) - Nos últimos nove dias, alguns norte-americanos aprenderam onde fica Pristina, a capital da província iugoslava do Kosovo. Hoje (01), o presidente Bill Clinton mais uma vez mostrou a milhares de telespectadores um mapa da região, para explicar por qual motivo os Estados Unidos se envolveram num conflito étnico, nessa conturbada região. Mas foi no Vietnã, que muitos pensaram hoje.
O xerife Dan Lane, de 51 anos, foi um desses. Ele foi acordado na madrugada desta quinta-feira para ajudar um grupo de militares americanos a encontrar a casa da família Stone, em Canokee Township - uma comunidade rural de 1854 pessoas, no interior do estado do Michigan.
"Eles estavam perdidos", explicou. Somente às 3h30 da manhã conseguiram contar aos pais de Christopher Stone que seu filho, de 25 anos, é um dos três soldados capturados pelas tropas iugoslavas, que serão julgados amanhã.
"Eles ficaram arrasados e tiveram que sair de madrugada, para escapar o assédio de jornalistas, que começaram a telefonar às 5h30", explicou Lane. Durante o resto do dia, dezenas de carros de emissoras de televisão, com seus discos satelitais, invadiram Canokee Township e a vizinha aldeia de Capac, onde Christopher Stone fez a escola secundária.
Seu rosto machucado apareceu hora após hora na CNN. "Quem não sabia o que era Kosovo, passou a saber", disse Lane.
Não é o caso de Lane, de 51 anos, veterano da guerra do Vietnã e xerife há 30 anos. A prisão dos três soldados não mudou sua opinião, contra ou a favor da guerra no Kosovo. "Eu quero mais informação, sobre os antecedentes históricos dessa guerra e sobre as opiniões das pessoas que estão lá na Iugoslávia", disse. "O que o presidente Clinton e a CNN me dão não basta".
Prevendo uma possível reação negativa do povo norte-americano e para levantar o ânimo de muitos de seus próprios assessores, que hoje consideram ineficazes os bombardeios aéreos, Clinton viajou à base aérea naval de Norfolk, na Virgínia, onde discursou para militares e seus familiares.
Culpou o presidente da Iugoslávia, Slodoban Milosevic, pelos conflitos étnicos que destruíram e continuam destruindo o país na última década. Seu único objetivo, disse, é conseguir mais poder, incentivando o ódio entre grupos étnicos que conviviam pacificamente até então.
Pedindo paciência ao povo americano, ele mostrou o mapa da região e explicou como os acontecimentos em Kosovo podem desestabilizar os países vizinhos e, finalmente, toda a Europa. Mas Lane - e outros americanos - questionam os motivos de Clinton e a veracidade das informações.
"No Vietnã, a história era igualmente complicada e, como agora, outros países além dos EUA se meteram", diz Lane. "Além da minha experiência de guerra, tenho a minha experiência de detetive: sei que não posso ter idéias preconcebidas e que preciso de todos os fatos antes de dar a minha opinião", conclui.
Em Huntsville, no Texas, os pais de outro soldado - Steven Gonzales - deram uma entrevista coletiva, falando da força espiritual de seu filho e do apoio moral que receberam de vizinhos, amigos e compatriotas. Para alguns texanos, a Iugoslávia não é tão longe quanto se pensa: em Houston, o reverendo Dejan Tiosavljevic, dirige a Igreja Sérvia Ortodoxa, e não acredita que seu povo possa ser responsabilizado por todas as atrocidades na Iugoslávia.
Mas a comunidade de sérvios no Texas está dividida: alguns se exilaram nos EUA depois de perderem suas casas na Croácia e culpam Milosevic por ter estimulado o ódio entre grupos étnicos, que levou à guerra na ex-repubública iugoslava.
Na Internet, houve hoje muitas manifestações de apoio aos soldados americanos e a Clinton. "Ele nos fez passar muita vergonha, mas temos que apoiá-lo nesse esforço para evitar que se cometam atrocidades em outras partes do mundo", escreveu uma esposa de militar. Mas não faltaram críticas, daqueles que lembram que esse mesmo presidente deixou de lutar no Vietnã - uma guerra que ninguém quer repetir.





