Captura de Ocalan provoca mortes e protestos
Berlim, 17 (AE-REUTERS) - Seguranças israelenses abriram fogo hoje (17) contra curdos que invadiam o consulado de Israel em Berlim, matando três pessoas nos protestos mais violentos que tomaram a Europa depois da captura pela Turquia do líder rebelde curdo Abdullah Ocalan.
A polícia alemã informou que 16 pessoas ficaram feridas. Testemunhas curdas disseram que uma delas era um garoto de 11 anos.
Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu alegou que os guardas de segurança israelenses agiram em defesa própria.
Ele afirmou numa entrevista coletiva que dezenas de curdos, alguns com paus e martelos, arrombaram o prédio e fizeram uma mulher de refém. Ela foi libertada depois que autoridades alemãs negociaram com os invasores.
"Lamentamos quando vidas são perdidas, mas estamos comprometidos com a proteção de cidadãos israelenses em qualquer lugar que possam estar e instalações israelenses em qualquer lugar do mundo", acrescentou Netanyahu.
O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), de Ocalan, anunciou que a morte a tiros dos três curdos era resultado de uma "guerra suja" promovida pelos aliados da Turquia e Israel contra os curdos.
Israel fechou suas missões diplomáticas na Europa por um dia, e os Estados Unidos aconselharam seus cidadãos viajando ao exterior para tomarem especiais precauções de segurança.
A Alemanha é lar de cerca de 500.000 curdos e mais de dois milhões de turcos, as maiores populações do gênero na Europa. Existem estimados 15 milhões a 20 milhões de curdos em todo o mundo.
Ocalan será julgado, e possivelmente sentenciado à morte, por sua participação na luta separatista de 14 anos no sudeste da Turquia, que já custou a vida de 29 mil pessoas.
A televisão turca noticiou hoje que forças da Turquia entraram num enclave curdo no norte do Iraque visando atacar guerrilheiros de Ocalan.
Enquanto seus partidários mantinham protestos em cidades da Europa, a televisão turca mostrava as primeiras imagens do líder rebelde desde que foi levado de avião do Quênia para a Turquia na segunda-feira em circunstâncias misteriosas.
Algemado e amarrado no assento do avião, ele fazia caretas enquanto agentes mascarados de forças especiais turcas o questionavam.
"Abdullah Ocalan, bem-vindo ao lar", disse um. "Você é nosso convidado a partir de agora".
"Obrigado", respondeu Ocalan. "Eu realmente amo a Turquia e o povo turco".
Mais cedo hoje, a Turquia acusou a Grécia de ter oferecido informação "incorreta e enganosa" sobre Ocalan, que foi capturado depois de ter-se abrigado na embaixada grega em Nairóbi.
A relação da Turquia com a Grécia já são tensas por causa de Chipre e os direitos sobre ilhas no mar Egeu. Grécia nega ter ajudado os rebeldes de Ocalan.
Em Londres, manifestantes curdos disseram que entraram em greve de fome dentro da embaixada da Grécia e iriam se queimar vivos caso a polícia invadisse o prédio.
Cerca de 15 a 20 curdos entraram a força na sede da agência para refugiados das Nações Unidas (Acnur) em Genebra, mas abandonaram o local três horas depois após um porta-voz da agência ter lido um comunicado listando suas exigências.
Manifestantes curdos que vinham ocupando uma sala de conferências na sede européia próxima da ONU desde terça-feira saíram sob uma escolta policial.
Cerca de 60 manifestantes curdos mantiveram um policial como refém no consulado grego em Zurique e ocuparam a embaixada da Grécia em Berna. As duas manifestações terminaram pacificamente. Curdos também entraram hoje na sede em Viena do governista partido Social Democrata da áustria.
Cerca de 15 curdos invadiram o escritório do governista Partido Social Democrata alemão em Hamburgo, fazendo funcionários de refém. A polícia alemã anunciou que suspeitava que curdos haviam sido responsáveis por ataques durante a madrugada contra centros culturais turcos, uma mesquita e um restaurante.
Vinte e seis curdos foram presos depois que invadiram os escritórios da Comissão Européia no centro de Copenhague e ocuparam o prédio por poucos momentos.
O Quênia decidiu fechar temporariamente suas embaixadas em todo o mundo temendo ataques.
O primeiro-ministro turco, Bulent Ecevit, garantiu que o julgamento de Ocalan será justo e realizado com rapidez.
Ele disse à rede CNN que Ocalan havia sido levado para a ilha prisão de Imrali, no Mar de Marmara, de onde os outros prisioneiros foram retirados. "Pelo menos por um tempo ele ficará lá, que será um lugar muito seguro para ele", acrescentou.
Mas em Amsterdã, a principal advogada de defesa de Ocalan, Britta Boehler, afirmou à REUTERS que ela temia que carcereiros turcos poderiam torturar e mesmo matar seu cliente.
Jornais turcos divulgaram que Ocalan havia deixado a embaixada da Grécia em Nairóbi na segunda-feira, acompanhado pelo que aparentemente seriam autoridades quenianas, acreditando que seria levado de avião para a Holanda.
Em seu caminho para o aeroporto, forças especiais turcas o capturaram, com ou sem a cumplicidade dos quenianos, afirmaram os jornais. Eles escreveram que os gregos provavelmente não sabiam da operação, mas concordaram em ejetar Ocalan de sua embaixada.
O ministro do Exterior grego, Theodoros Pangalos, afirmou no parlamento que Ocalan havia ignorado avisos da Grécia para não confiar nas autoridades quenianas.
Os Estados Unidos têm rejeitado sugestões de que deu informações a Ancara sobre o paradeiro de Ocalan ou que tenham ajudado na operação. Mas o diário turco Yeni Yuzyil noticiou que Washington tinha ajudado Ancara em troca por ter recusado exigências iraquianas pelo fim do uso de bases turcas para patrulhas aéreas sobre o Iraque.
Em Nairóbi, um oficial afirmou que autoridades quenianas colocaram Ocalan num vôo para fora do país, contradizendo garantias anteriores do governo de que não tinha tomado parte em sua captura e transferência para a Turquia.
O Quênia também estaria mantendo detidos quatro assessores de Ocalan e os investigando por terem entrado ilegalmente no país.





