Captação de recursos no exterior registra melhora
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terça-feira, 23 de março de 1999
Por Cleide Sánchez Rodríguez e Lucinda Pinto 
São Paulo, 24 (AE) - O tom do mercado internacional melhorou. Depois de várias semanas sem perspectiva de retomar as captações de recursos no exterior, os bancos nacionais ou que operam no País começam a se movimentar em busca dos investidores que, durante meses, resistitiram aos papéis emitidos a partir do Brasil. Os motivos são conhecidos, primeiro foi a crise financeira desencadeada com a moratória russa e depois a maxidesvalorização do real.
Aos poucos, esse cenário mais favorável, sobretudo após o road-show realizado pela equipe econômica, vai apresentando resultados. O Citibank do Brasil, por exemplo, faz amanhã o primeiro lançamento de papéis de sua emissão no mercado internacional depois de vários meses de ausência. Dentro de 15 dias deverá ser a vez do Bradesco, com US$ 100 milhões, inicialmente, que podem chegar a US$ 200 milhões. Itaú, Unibanco
ABN Amro, BBA, entre outros também estudam retomar o mercado de capitais internacional, até para fazer frente ao pesado volume de vencimento de papéis entre o fim de março e abril.
A Vale do Rio Doce também já anunciou uma emissão de US$ 50 milhões e a Petrobrás assina amanhã, em Nova York, um programa de commercial paper no valor de US$ 130 milhões com bancos norte-americanos, coordenado pelo Chase Manhattan. É consenso entre executivos: há melhora substancial da percepção em relação ao Brasil depois de fechado o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), da posse de Armínio Fraga na presidência do Banco Central (BC) e até os números de inflação aquém do previsto. Todas essas variáveis estão contribuindo para quebrar a resistência do investidor internacional.
É certo que os valores não são grandes e os prazos, curtos. De acordo com o diretor da área de Mercado de Capitais do Citi, Alfred Dangoor, o prazo da emissão é de seis meses e o valor deve ficar entre US$ 75 milhões e US$ 100 milhões. O lançamento do papel será nos mercados norte-americano, europeu e parte da ásia, junto a investidores de private bank e alguns fundos de investimentos. "Nós estamos confiantes na receptividade do papel", disse o executivo. Embora seja um banco estrangeiro, é preciso considerar que, nos tempos mais bicudos, a matriz não autorizaria uma emissão sequer.
O preço para retomar o mercado internaciona não é nada barato. Segundo Dangoor o Citi do Brasil vai pagar rentabilidade de 11,5% ao ano. O diretor da área Internacional do Bradesco, José Guilherme Lembi de Faria, disse que hoje deverá ser definida a taxa de juros da operação, que deverão situar-se entre 11,5% e 11,75%. O valor da operação poderá chegar a US$ 200 milhões.
Esse percentual representa um prêmio de seis pontos percentuais acima da Libor - a taxa de juros de referência do mercado londrino. Antes da crise da ásia, porém, essa taxa era de 1,5 ponto percentual acima da Libor. "Ainda é uma taxa muito alta, mas é condizente com as condições do mercado", afirmou Faria. O executivo lembrou, porém, que antes road-show da equipe econômica a taxa estava em 14% ao ano. O Bradesco estará apresentando os papéis amanhã aos investidores da Europa e Estados Unidos.
O diretor da área Internacional do BBA Creditanstalt, Eduardo Vassimon, observou que a taxa alta, considerando os níveis históricos das emissões brasileiras, é o preço a ser pago para o Brasil retomar o mercado internacional. É de se esperar que os preços se reduzam, disse, acrescentando que o BBA estuda lançamentos mais à frente. O bônus caravela emitido pelo banco, com vencimento no dia 8 de abril, será quitado. O mesmo caminho vai seguir o ABN Amro em relação ao bônus de US$ 100 milhões, que vence no dia 31 de março.
O diretor da área Comercial dos bancos ABN Amro e Real, Renato Faria, importantes players do mercado de trade finance, diz que o road-show promovido pela equipe econômica causou efetivamente uma boa impressão sobre o Brasil. Mas, segundo ele, os bancos estrangeiros continuam estudando e "digerindo" os números e informações apresentados. Assim, as linhas de financiamento permanecem inalteradas. "Eu mal consigo renovar as operações que vencem. Os volumes continuam pequenos, os preços altos e os bancos seletivos", afirma Faria. Na sua opinião, a recuperação efetiva ainda demora algumas semanas.
O que preocupa o mercado, nesse caso, é que se espera uma recuperação forte da balança comercial a partir de abril. Ninguém acredita que a projeção de superávit comercial de US$ 11 bilhões, traçada pelo governo no acordo com o FMI, será atingida. Mas, para que se obtenha um número considerado razoável perante a desvalorização cambial, os economistas calculam que haja saldos positivos próximos a US$ 1 bilhão em abril e em maio, quando se embarca a safra agrícola. Boa parte do que será despachado já tem seus dólares fechados. Mas será necessário que ocorram contratos cambiais novos, para gerar um fluxo cambial positivo.
Muitos analistas acreditam que os bancos internacionais aguardam os primeiros resultados trimestrais do ano, tanto por parte de empresas, como por parte do próprio governo, para liberar novas linhas de financiamento. O fato é que os sinais positivos que "pipocam" nestes dias terão que ser ampliados ao longo dos próximos dois meses, para que o bom humor se consolide. Afinal, se espera para o próximo mês um volume de remessas de recursos 50% superior ao de março, o que singnifica que as entradas serão ainda mais necessárias para que o dólar se mantenha.
Segundo Dangoor, os recursos captados serão destinados a empréstimos a clientes. "Sentimos que está havendo uma melhora no ânimo no mercado internacional e decidimos voltar a captar", afirma Dangoor.


