Engana-se quem pensa que no Exterior o Brasil é visto apenas como o país do futebol. De uns anos para cá, é considerado também o país da capoeira. E este misto de arte, dança, luta e filosofia de vida tem encantado um número cada vez maior de europeus e americanos. Francisco da Silva, 40 anos, ou mestre Fran, precursor da capoeira em Londrina, é prova disso. Há dois anos ele foi para os Estados Unidos para ficar oito meses. Recebeu convite para trabalhar por mais tempo e a estadia foi prolongada.
  No mês passado ele voltou para Londrina, mas só de passagem. No próximo dia 15 embarca para Toronto (Canadá), onde participa de um ‘batizado’. De lá segue para a Espanha e Inglaterra, retornando na sequência para os Estados Unidos. Ele foi uma das atrações de uma roda no Calçadão, que abriu o Encontro Nacional de Capoeira, realizado em meados de agosto em Londrina. Além de alunos, professores e instrutores da Associação Cultural de Capoeira Maculelê, o evento contou com a participação de alunos de outros países e vários professores que saíram de Londrina para trabalhar na Europa.
  Um deles é Márcio Gonçalves da Silva Ruiz, 24 anos, o professor Marcinho. Garoto pobre do Jardim União da Vitória (Zona Sul), ele foi ‘apresentado’ à capoeira aos 11 anos, através do projeto Educando, Brincando e Formando Cidadãos, desenvolvido na época pela secretaria de Cultura do município. A família foi contra, tentou impedir que ele continuasse. Mas a paixão pela capoeira foi mais forte, e ele, a princípio, foi morar com a avó. Depois, recebeu abrigo do próprio mestre Fran.
  Há três anos e meio ele mora em Portugal com a mulher e o filho, que nasceu lá. Aproveitando as férias de verão européias, veio passar uns tempos no Brasil. No início do ano volta para Portugal e, depois, segue para a Espanha. Márcio estudou só até a 8ª  série, mas consegue se comunicar em espanhol e entende um pouco de inglês. ‘‘Tudo que aprendi de bom na vida foi graças à capoeira. Se não fosse ela, provavelmente eu teria me envolvido com a criminalidade’’, diz o professor, que já pensa em voltar aos bancos escolares.
  Para o espanhol Raul Bayún, de 16 anos, a capoeira pode formar, ‘‘além de um esportista, uma grande pessoa’’. Ele conheceu os movimentos nascidos entre os escravos brasileiros há dois anos, em Madri, e aproveitou as férias para vir conhecer o berço desses movimentos. ‘‘Queria receber esta energia do Brasil.
  Segundo o mestre Fran, a Europa vive hoje um ‘‘boom’’ da capoeira, num processo parecido com o ocorrido no Brasil há cerca de oito anos. ‘‘Nos Estados Unidos a capoeira também vem sendo bastante valorizada, mas está mais concentrada em San Francisco e Nova York’’, esclarece. Para ele, a explicação para tanto sucesso lá fora está no fascínio exercido pela mistura de raças. ‘‘A capoeira retrata a miscigenação, que só aconteceu de forma tão intensa no Brasil.’’
  O mestre se queixa, porém, da falta de valorização por parte das autoridades brasileiras. Nos Estados Unidos, ele trabalha em duas universidades e desenvolve um projeto mantido pelo governo em Atlanta, em um centro afro-americano. ‘‘Aqui os mestres não recebem o mesmo apoio. No entanto, a capoeira é a arte que mais tem divulgado o Brasil lá fora, junto com o futebol.’’ E por falar em futebol, ele acredita que o destino das duas marcas registradas do País será o mesmo: ‘‘O Comitê Olímpico já reconheceu a capoeira como esporte’’, afirma.

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