Capitólio recebe 2,5 mil PMs para manobras em Furnas
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segunda-feira, 11 de outubro de 1999
Por Ivana Moreira 
Capitólio, MG, 11 (AE) - Eles deixaram a cidade no meio da madrugada, percorreram 280 quilômetros e, ao alvorecer, desembarcaram carregando enormes mochilas verdes no acampamento, às margens da rodovia. Um total de 2.500 homens prontos a enfrentar uma guerra: a guerra contra o "capital estrangeiro, a especulação financeira, o entreguismo." Pelo menos é essa a imagem que o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), que passar ao resto do País.
A ação foi armada durante o fim de semana. Barracas e estandes de treinamento foram espalhados num raio de 4 quilômetros, na altura do quilômetro 262 da Rodovia MG-050, às margens da Represa de Furnas Centrais Elétricas - a hidrelétrica que o presidente Fernando Henrique Cardoso quer privatizar e que Itamar quer manter como estatal. A primeira apresentação foi realizada hoje, em clima de solenidade.
Em Capitólio, região onde está centralizado o comando da operação, oficiais tentam driblar a polêmica, insitindo na versão de que os exercícios militares em Furnas não passam de treinamento de rotina.
Nos treinamentos anuais anteriores, o contigente de policiais não chegava à metade dos 2.500 mil homens convocados por Itamar. O local escolhido para as manobras, por medida de economia, nunca passou da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A operação que teve início hoje e só será encerrada na quinta-feira (14) está custando aos cofres do governo cerca de R$ 450 mil.
"Apenas mudamos o lugar do treinamento por recomendação do governador", explica o comandante da operação, coronel Ari de Abreu.
"Ele quer chamar a atenção para Furnas, trazer os grandes jornais, as tevês para cá." Tomando cuidado com a palavras, o coronel diz que não sabe avaliar qual será o dividendo político para o governador.
Questionado sobre a possibilidade de a Polícia Militar romper o dique de retenção da represa, Abreu afirma: "Isso é coisa do governador." Ele completa: "Não temos competência para isso, não somos engenheiros." Por via das dúvidas, os homens do Batalhão de Missões Especiais prepararam uma simulação da explosão de uma casa à beira do dique.
A apresentação da explosão deveria ser feita diante do governador, caso ele aparecesse em Furnas. Mas, no fim da tarde de hoje, ele informou que não viajaria para assistir às manobras militares porque teria outros compromisso na capital.
Nos discursos contra a privatização de Furnas, Itamar ameaçou romper o dique da barragem, caso a venda da estatal fosse concluída. O rompimento do dique permitiria a passagem das águas do Rio Grande para o São Francisco. Com isso, o volume de água da represa baixa, comprometendo a capacidade de produção de energia da hidrelétrica.
Da primeira vez que se referiu ao desvio do rio, Itamar afirmou que usaria a PM. Mais tarde, recapitulou e informou que precisaria de apenas alguns engenheiros. Ele próprio foi um dos engenheiros que trabalhou na drenagem do pântano para a construção da hidrelétrica, nos fins da década de 50.
A decisão de pôr a PM para defender Furnas colocou Itamar no alvo das críticas dos praças e dos próprios oficiais.
Obedientes ao governador, que é o comandante maior da corporação, eles não aceitam dar entrevistas. Mas, protegidos pelo anonimato, afirmam: o que está em jogo são os interesses políticos de Itamar.
No campo de guerra montado em Furnas, o grupo - formado em grande parte por alunos da Academia de Polícia Militar e do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças - resigna-se a cumprir o cronograma de atividades militares. Um total de 11 estandes de treinamento foi armados: tiros prático e noturno e munição química, entre outros. Divididos em companhias batizadas com nomes de rios mineiros, eles revezam-se no treinamento, que começa ao alvorecer e só termina por volta das 17 horas.
Entre os policiais, parece haver um único motivo de satisfação na operação Furnas: a compra de equipamentos que há tempos vinham sendo reivindicados. Graças à empreitada do governador mineiro, a corporação recebeu fardas e equipamentos novos. Só coletes à prova de bala foram quase 2 mil.
Além das manobras no acampamento, a operação incluirá, até quinta-feira, ação civil em nove cidades da região. Blitze, verificação de documentos, atendimento médico e recreação estão sendo realizadas para deixar uma boa impressão em comunidades que há muito clamavam por policiamento adequado. Pelo menos por quatro dias, não faltará policiais nas ruas das cidades às margens da represa de Furnas.


