São Paulo, 05 (AE) - O capital francês está redescobrindo o Brasil nas transações entre empresas. Depois da "invasão" espanhola, nas telecomunicações, e da alemã, agora é a vez de a França ocupar sozinha a vice-liderança no ranking dos países que compraram parte ou a totalidade de companhias brasileiras nos seis primeiros meses deste ano. A liderança inabalável, no entanto, continua em poder do capital norte-americano.
A pesquisa Fusões & Aquisições da KPMG revela que, no primeiro semestre deste ano, o capital francês participou de 11 transações, de um total de 100, e perdeu apenas para os Estados Unidos, que respondeu por 38 negociações. De janeiro a junho do ano passado, a França dividiu a vice-liderança em número de negócios realizados no País, que foram dez, com a Alemanha e a Espanha. No primeiro semestre deste ano, a Alemanha caiu para a terceira posição no ranking da KPMG, participando de nove negócios, e a Espanha ficou em quinto lugar, com cinco transações, dividindo essa posição com Itália e Suíça, que participaram de cinco negócios cada uma nesse período.
O interesse do capital francês pelo Brasil ganhou visibilidade nas últimas semanas, quando o Grupo Pão de Açúcar, vice-líder do setor supermercadista, anunciou que a rede francesa Casino se tornaria sócia minoritária do grupo, injetando US$ 1,6 bilhão e concretizando o maior negócio do varejo brasileiro. O Carrefour, de origem francesa, presente no País há 24 anos, também acelerou os investimentos para garantir mercado no setor varejista, comprando outras redes. Na quinta-feira passada, foi a vez do grupo Abril, que anunciou uma associação com o grupo francês Vivendi para compra das editoras ática e Scipione por US$ 100 milhões.
Segundo o sócio de Corporate Finance da KPMG, José Luiz Saicali, o capital francês está no País desde a segunda metade da década de 80 e se manteve em compasso de espera nos anos 90. "Agora é a vez dos franceses", aponta. Saicali ressalta que, além da afinidade cultural, os empresários franceses estão sendo atraídos pelas boas perspectivas de rentabilidade. Toda vez que que há uma desvalorização cambial, as mercadorias importadas ficam mais caras e as margens de ganho das empresas instaladas no País aumentam por causa da redução na competitividade externa
explica o executivo. Varejo - A preferência dos franceses tem sido pelo varejo, segmento no qual eles são especialistas, diz o sócio da KPMG. Na avaliação do coordenador do Programa de Administração do Varejo da Universidade de São Paulo (Provar/USP), Claudio Felisoni, a experência bem-sucedida do Carrefour no País tem atraído outros grupos franceses. "O Brasil é um país de muitas oportunidades, especialmente porque integra o Mercosul", diz Pierre Courty, diretor-geral da Fnac-Brasil, rede de lojas especializadas em livros e discos, entre outros produtos culturais. A empresa, que faz parte do grupo francês PPR, cujo faturamento é de US$ 25 bilhões por ano, acaba de fincar bandeira no Brasil com a compra do antigo shopping ática, em São Paulo. A abertura da primeira loja no Brasil deve preceder uma sequência de 15 a 20 novos pontos-de-vendas nos próximos cinco anos, planejados para entrar em funcionamento. E a próxima unidade será no mercado carioca ou paulista, diz Courty. Ele confirma que outra rede, pertencente ao mesmo grupo e especializada em eletroeletrônicos, deve abrir as portas no País em breve.
O diretor da Fnac-Brasil explica que os planos da companhia vão depender da evolução do dólar, mas admite que as possibilidades de expansão dos negócios são bem maiores por aqui porque o mercado francês é mais competitivo.

mockup