Florença, 01 (AE) - Tutti in piazza, com um estrondo, mas "low tech": sem desmesura kitsch à la Tony Blair no Millenium Dome, sem pane eletrônica como no relógio da Torre Eiffel, sem paranóia norte-americana com o bug do ano 2000. A capital do Renascimento começou o ano 2000 com um elegante desfile de garrafas de champanhe na passarela do Rio Arno iluminado por fogos de artifício.
Foguetes estouravam como morteiros no corredor entre a galeria Uffizi e a Piazza della Signoria. Tutti in piazza: senhoras de pelliccia e empanadas de ouro, ragazzi malucos no telefonino, cachorros aterrorizados, chineses perplexos.
O prefeito Achille Serra abriu o ano 2000 com uma mão na garrafa de Moet, outra mão em um telefone-satélite, e uma terceira - como a Medusa de Cellini - soando o campanile da esguia torre de Arnolfo di Cambio na Piazza della Signoria, cuja perspectiva é praticamente a mesma de 1500. Em volta, estão o Duomo de Brunelleschi, o campanile de Giotto, o Perseu de Cellini de 1554.
Tocaram também, pela primeira vez em 55 anos, os sinos da Torre do Bargello. Há meio milênio, graças sobretudo aos Medici - uma dinastia de banqueiros - a República de Florença era o coração cultural e intelectual da Europa, lançando o ciclo ainda inacabado da hegemonia da Europa sobre o Oriente. O resto da Toscana era ocupado por Estados papais de reduzida importância.
Nunca se viu tamanha concentração de gênios. Leonardo tinha 48 anos. Michelangelo, 25. Rafael, 17. Ticiano, 13. Maquiavel era secretário do Conselho Diretor da República - 32 anos antes da publicação de O Príncipe. O Duomo de Brunelleschi tinha apenas 37 anos. O Nascimento da Vênus, de Boticcelli, apenas 15 anos. A Flora na Primavera de Boticcelli - a mais bela top model da História -, apenas 20 anos. O David de Michelangelo seria completado quatro anos depois.
A História da humanidade pode ser interpretada como uma sequência de ciclos - de acordo com Platão no oitavo livro da República, e Gianbattista Vico na Scienza Nuova. Vico, um napolitano do início do século 18, terminou sendo "homenageado" por James Joyce no maior romance do século 20, Ulisses. Os mais agudos pensadores modernos concordam que a uma era teocrática sucede uma era aristocrática, a seguir uma era democrática - a atual - e a seguir, o caos. De acordo com Vico, a nova era será o caos, sucedida por uma nova era teocrática.