Capiberibe critica Itamar e apoio da esquerda ao governador
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de março de 1999
Por Vera Rosa 
São Paulo, 10 (AE) - Único governador sem dívida com a União, João Alberto Capiberibe (PSB), do Amapá, acha que seu colega de Minas, Itamar Franco (PMDB), está exagerando na briga com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Integrante do bloco de governadores de oposição, Capiberibe diz não conseguir entender as reais intenções dessa queda-de-braço. "Itamar já passou dos limites", critica. "Ele não tem solução nem para Minas, imagine para o País..."
Capiberibe não irá a Belo Horizonte na segunda-feira (15), quando a Assembléia Legislativa de Minas promoverá um seminário sobre pacto federativo, que acabará terminando em ato de solidariedade a Itamar. Lá estarão representantes de todos os partidos de oposição. O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, aproveitará a oportunidade para contornar o mal-estar criado pela rede de intrigas que tem marcado o relacionamento entre a esquerda e Itamar. "Acho que isso também já está demais", disse Capiberibe. "Cada manifestação de Lula ou de Itamar é uma mexida em 2002, mas isso está muito distante para quem tem problemas como os nossos."
No diagnóstico do governador socialista, todos as alianças e rompimentos pós-moratória mineira têm por trás a sucessão presidencial de 2002 e por isso a oposição não consegue mobilizar a sociedade. "Os grandes fantasmas de Fernando Henrique são o Itamar, de um lado, e o ACM, de outro", afirmou Capiberibe, numa referência ao presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Para ele, as divergências na frente de esquerdas que sustentou a terceira candidatura de Lula à Presidência (PT, PDT, PSB, PCB e PC do B) prejudicam ainda mais o quadro. "A verdade é que estamos sem bandeira, porque não basta uma palavra de ordem contra a política econômica."
Da comissão de governadores que discute com o Planalto a Lei de Responsabilidade Fiscal, Capiberibe avalia que Fernando Henrique "deu uma recuada e pode recuar ainda mais se vislumbrar um cenário de colaboração política". Ele discorda da proposta do presidente do PDT, Leonel Brizola, que defende uma campanha pela renúncia do presidente. A sugestão já foi rejeitada pelo PT e pelo PSB num bate-boca público.
"Tenho mente de engenheiro e vou mostrar, como num teorema, que Fernando Henrique não acabará com a crise", disse Brizola. "Em nome da lucidez, o PT entenderá isso." Na lavagem de roupa suja, o deputado José Dirceu, presidente do PT, não deixou por menos: "Quem dirige o PT somos nós."
Com uma visão um pouco diferente da de seus pares, Capiberibe acredita que quem pode dar o tom da unidade das oposições é a própria sociedade. "Estou falando até como cidadão: é preciso reduzir o debate sobre bolsas e juros, porque as pessoas querem soluções, e não economês ", diz. "O País está em crise, com milhões de desempregados, e, mais do que fazer oposição, devemos formular propostas."
No segundo mandato, Capiberibe promoveu o ajuste das contas do Estado e, no auge do corte de despesas, não podia nem sair às ruas. Mas a situação mudou e hoje o Amapá não tem dívidas para renegociar com a União. Ao contrário: é dono de um crédito de R$ 40 milhões. "Vivo num microcosmo, mas, se eu consegui reduzir os gastos lá, acho que isso pode ser ampliado", argumenta.


