Canudos ressurge com a seca e pode ser tombado
Agência Folha
De São Paulo
O governo federal, por intermédio do Iphan (órgão que cuida do patrimônio histórico nacional), iniciou o processo de tombamento de Canudos, palco da mais sangrenta guerra civil brasileira e onde foram mortos, de acordo com estimativas do exército, cerca de 25 mil pessoas, entre 1894 e 1897.
Inundado em 1968 pelas águas do açude de Cocorobó, o arraial de Canudos (distante 420 quilômetros de Salvador) e suas ruínas começaram a emergir em 1996 com a seca que atingiu todo o semi-árido baiano. Hoje, depois de quatro anos sem chuvas significativas, toda a área do arraial pode ser percorrida a pé.
Voltaram à tona agora as ruínas da primeira igreja de Canudos (Igreja de Santo Antônio), a segunda igreja (Igreja de Bom Jesus, estopim da guerra) e um cruzeiro. Em 1996, já era possível ver o muro do cemitério e as ruínas da terceira igreja de Canudos (a Igreja Nova), erguida depois do bombardeio promovido pelo exército.
Bom Jesus, Santo Antônio e o cruzeiro foram inaugurados por Antônio Conselheiro, líder religioso que comandou os jagunços contra as tropas da recém-fundada República. Das cinco mil edificações de Canudos, as duas igrejas eram as mais sólidas e para onde os conselheiristas corriam quando começavam os bombardeios das tropas de Prudente de Morais. Com a seca, os arqueólogos paulistas Paulo Zanettini e Erika Gonzales, contratados pela Uneb (Universidade do Estado da Bahia), começaram as escavações para os estudos dos edifícios.
Esta é uma situação única para estudarmos todo o sítio arqueológico. Não sabemos até quando a região vai ficar sem chuva. Precisamos concluir os estudos antes da volta das chuvas e do novo alagamento do açude, diz Zanettini. Além do risco sempre presente de o açude voltar a encher e encobrir novamente o arraial, os pesquisadores lutam contra a depredação do sítio arqueológico. Como há um século, moradores das cidades vizinhas continuam a fazer romarias em direção a Canudos. Em paus-de-arara (caminhões) ou em ônibus fretados, os romeiros dos anos 90 chegam às centenas às ruínas. Na semana passada, romaria com cerca de 900 pessoas, promovida pela Fetag (Federação dos Trabalhadores na Agricultura) e pelo padre Enoque José de Oliveira, religioso rompido com a Igreja Católica, realizou um protesto em cima das ruínas de Canudos.
Canudos foi fundada em 1893 por Antônio Conselheiro com o nome de Bello Monte. A aura messiânica da cidade e de seu fundador chegou a atrair para lá, de acordo com documentos do Exército Brasileiro, cerca de 25 mil moradores, que viviam em cinco mil barracos. Bello Monte, nestes primeiros anos, era a segunda maior população da Bahia, perdendo apenas para a capital Salvador.





