Cantor é enterrado ao
som de suas músicas
Sob chuva fina, muitos aplausos e ao som de ‘‘A Voz do Morro, Máscara Negra e Acender as Velas’’, acompanhadas de um surdo de marcação, foi enterrado ontem, no Cemitério de Inhaúma, o corpo do cantor e compositor José Flores de Jesus, o Zé Ketti. ‘‘O sambista não morre, o sambista viaja para o reino da glória’’, afirmou o irmão do compositor, Adilson Flores de Jesus, citando uma frase de autoria de Zé Ketti. ‘‘Ele agora está no reino da glória. Os mais importantes sambistas da velha guarda estiveram presentes ao velório e ao enterro.
‘‘Ele improvisava bem, brincava com a música, fazia com ela o que queria’’, afirmou o compositor Monarco. ‘‘Na década de 50, na época em que o iê-iê-iê dominava tudo, foi ele quem virou o jogo com ‘‘A Voz do Morro. ‘‘Ele foi um dos grandes incentivadores do samba’’, reforçou o compositor Walter Alfaiate. Para outro grande compositor, Nélson Sargento, o samba perdeu um de seus maiores representantes. ‘‘Ele fez tanto pelo samba, que fez uma música dizendo, ‘eu sou o samba’’, lembrou. Segundo seus parentes, mesmo doente, Zé Ketti sonhava em montar um grande show de samba. ‘‘Ele pensava em fazer uma homenagem ao samba carioca, um novo show Opinião, ou mesmo um espetáculo musical’’, contou sua filha Geisa Flores.
O sambista Zé Ketti, um dos maiores ‘‘bambas’’ da velha guarda, representou um dos principais elos entre os compositores do morro e os intelectuais da zona sul carioca. O marco dessa conexão foi o show Opinião, de 1964, idealizado por Oduvaldo Vianna Filho, engajado na resistência ao regime militar. Ketti fazia um malandro de morro, e o compositor maranhense João do Vale interpretava um retirante nordestino. Contracenavam com Nara Leão, substituída depois por Maria Bethânia.
Também esteve presente no enterro o cineasta Nélson Pereira dos Santos, com quem Zé Ketti trabalhou. Foi para o filme Rio 40 graus, de 1955, que Zé Ketti fez ‘‘A Voz do Morro’’. Três anos depois, o diretor rodou Rio Zona Norte, filme estrelado por Grande Othelo, inspirado na vida de Zé Ketti. ‘‘Ele fazia muito bem a união entre o morro e os intelectuais, como Vinícius de Morais e Nara Leão’’, lembrou Nélson Pereira dos Santos. (Das agências)

CRONOLOGIA
- 6/10/1921 – Nasce Zé Ketti, em Inhaúma, no Rio
- 1937 – Aos 16 anos, é levado para a escola de samba da Portela pelo compositor Alvaiade
- 1952 – Linda Batista grava o samba ‘‘Amor Passageiro’’, primeiro grande sucesso de Zé Ketti
- 1955 – O samba ‘‘A Voz do Morro’’ é incluído no filme ‘‘Rio, 40 Graus’’, de Nelson Pereira dos Santos
- 1957 – Nelson Pereira dos Santos lança o filme ‘‘Rio Zona Norte’’, baseado na vida e na obra do compositor. O filme torna conhecido o samba ‘‘Malvadeza Durão’’
- 1961 – Lança o samba ‘‘Velha Guarda da Portela’’
- 1962 – Funda o grupo musical ‘‘A Voz do Morro’’, composto por Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Anescar do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode. O grupo gravou ‘‘Roda de Samba’’ e mais dois discos
- 1964 – Participa da montagem do show ‘‘Opinião’’, no Rio. O espetáculo, escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes.
- 1967 – Grava a marcha-rancho ‘‘Máscara Negra’’ com Dalva de Oliveira, em parceria com Hildebrando Pereira Matos
- 1996 – Lança o CD ‘‘Zé Ketti 75 Anos de Samba’’
- 1998 – Ganha o Prêmio Shell de Música

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