''Quem canta, seu mal de Parkinson espanta.'' A frase, dita entre risos pelo presidente da Associação Brasil Parkinson (ABP), Samuel Grossmann, define bem a razão de ser do coral de pacientes com Parkinson e pioneiro no País: minimizar os efeitos da doença na voz e, de quebra, melhorar a auto-estima dos coristas.
''O mal de Parkinson torna a voz cada vez mais trêmula, monótona e fraca'', explica Mara Behlau, fonoaudióloga do Centro de Estudos da Voz (CEV), em São Paulo. ''O paciente transmite a impressão de estar mais doente do que realmente está.'' A doença, incurável, afeta o sistema nervoso, prejudicando os movimentos. Causa tremores, rigidez muscular e desequilíbrio.
Mara idealizou o coral há dez anos. Atuando na instituição desde que os trabalhos começaram, ela queria encontrar um bom exercício para acompanhar o serviço de fonoaudiologia gratuito que o CEV oferece aos parkinsonianos da associação. ''O coral surgiu naturalmente.''
Lourdes Torrecillas, de 66 anos, descobriu que tinha a doença em 2001. Na época, ficou deprimida e com medo. Uma amiga decidiu levá-la à ABP, mas ela recusou o convite. ''Achei que me deprimiria ainda mais ao ver outras pessoas com a doença.'' Depois de muita insistência, aceitou. Desde então, participa do coral. ''Além de melhorar a voz, é uma alegria grande vir aqui.''
Os ensaios são abertos e ocorrem no auditório da associação nas tardes de quinta-feira. Participam, em média, 40 pessoas todas as semanas. Cerca de 150 parkinsonianos já se beneficiaram com a iniciativa.
A regente do coral, Teresa Freitas, ainda lembra a primeira apresentação pública fora da ABP. ''Foi na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diante de um público de neurologistas. Os médicos compreendiam bem os limites que estavam sendo transpostos.'' Desde 2000, o coral conta com um patrocínio da farmacêutica Roche, que contrata uma tecladista, Denise Divenutto, para acompanhar o grupo.
A fonoaudióloga Rosyane Faukas assistiu um dia a apresentação do coral. Ficou emocionada. Ofereceu-se para ajudar e, desde então, anima os encontros com violão. ''Eles gostam muito de seresta, mas também tocamos MPB.''
Rosyane e Mara conduziram uma pesquisa científica sobre o efeito do coral na voz dos parkinsonianos. Participaram 12 homens e 17 mulheres que frequentam os ensaios. As pesquisadoras gravaram exercícios vocais antes e depois dos encontros. Concluíram que houve melhora no ''tempo de fonação'' e ''diminuição da instabilidade'' da voz.
''A participação no coral não cura de uma vez as deficiências na fala'', explica Mara. ''Como o Parkinson é uma doença degenerativa, a melhora permanece enquanto o paciente exercita o canto.'' Elas pretendem mostrar os resultados no 13º Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia.
No ano passado, Mara apresentou um CD de músicas do coral no 1º Congresso Mundial de Parkinson, nos Estados Unidos. ''Agora, os americanos tentam aplicar a idéia'', afirma.

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