Cândido diz que fita foi 'arquitetada'
Maigue Gueths
Mesmo após a divulgação de fitas de vídeo que mostram policiais militares encapuzados, entrando de madrugada nos acampamentos dos sem-terra nas Fazendas Cobrinco e Arapongas, no Noroeste do Estado, inclusive com o uso de bomba de efeito moral, o secretário da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, negou novamente ontem, em entrevista coletiva, o uso de violência por parte dos policiais militares nas desocupações de terras.
O secretário disse que está requisitando as fitas junto à imprensa para analisar o conteúdo e a veracidade e que promoverá uma investigação dentro da PM para descobrir os responsáveis pelo repasse do material aos sem-terra.
O material foi divulgado ontem pela Folha. Trata-se de fitas de vídeo amador feitas pela Polícia Militar e repassadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O coordenador do MST, Rogério Mauro, disse que as fitas vieram de diversas fontes de dentro da polícia, mas não são de simpatizantes do movimento, e sim de policiais indignados com o tratamento dispensado aos sem-terra. O secretário alega que as fitas foram inteligentemente arquitetadas para mostrar uma situação.
A fita que mostra um treinamento antiguerrilha da PM, segundo ele, foi feita há cerca de quatro anos. O capitão Almeida que aparece nesta fita já morreu há um ano e meio, diz. O coordenador do MST rebate esta afirmação, lembrando que há quatro anos o atual governo já estava no poder, e portanto era o responsável por este tipo de treinamento da PM.
O secretário da Segurança nega que as operações de despejo tenham ocorrido de madrugada. Segundo ele, os atos de preparação ao despejo começam um dia antes, quando a PM fecha as rodovias de acesso e cerca a área. Sem chances dos ocupantes saírem ou entrarem, a PM invade a área de madrugada, e coloca os sem-terra numa posição de imobilidade, para que sejam revistados e as barracas vistoriadas.
Tudo isto, garantiu o secretário, é feito sem violência. Os acampados ficam assim até 6 horas, quando chegam os oficias de justiça e aí sim, informou Cândido Martins de Oliveira, promovem o despejo com a leitura oficial do termo de desocupação. O despejo só acontece de manhã, dentro da lei. O que acontece antes é uma preparação, a neutralização dos invasores. Esta é uma prática comum às polícias de todo mundo, diz. Para o secretário, se a polícia não agir dessa forma, usando o elemento surpresa, o MST poderia convocar mais pessoas para a área e resistir ao despejo.
Para o coordenador do MST, a explicação do secretário não convence. Se ele chama de normal a polícia entrar chutando e batendo em todo mundo, obrigando o pessoal a deitar no chão úmido e derrubar barracas, sem falar nas torturas, então não sei o que ele entende por despejo, afirma.
Apesar das fitas mostrarem barulhos de tiros e explosões de bombas, Cândido Martins diz que só foi usada uma bomba de efeito moral nas 22 desocupações realizadas este ano. Destas, 16 aconteceram com a ação da PM. Numa operação desse porte, a gente ouve barulho de tudo quanto é tipo, explica. Ele nega ainda o uso de armas de fogo pela PM.
O secretário afirmou, ainda, que os policiais não estavam usando capuzes para que não fossem identificados. Eles usavam a balaclava, que é uma proteção para a cabeça colocado por baixo do capacete. Como já estavam numa situação de normalidade na área, provavelmente por desprendimento eles tinham tirado os capacetes, disse.
As cenas não comprovam que tenha havido violência por parte da PM. Ao contrário, mostra que a polícia agiu com cautela para não deixar sequelas nem haver confronto, afirmou. O acesso da imprensa, segundo ele, foi impedido porque poderia acirrar os ânimos.
Para Rogério Mauro, do MST, entretanto, as fitas mostram claramente a ação violenta da polícia. O movimento pretende exibir a fita para os sem-terra acampados em frente ao Palácio Iguaçu.





