Candidatura de Menem poderá rachar peronismo
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sexta-feira, 05 de março de 1999
Por ARIEL PALACIOS, especial para a Agência Estado 
Buenos Aires, 06 (AE) "O espetáculo acaba de começar." Esse foi o comentário generalizado em Buenos Aires esta semana, quando Ricardo Bustos Fierro, juiz federal da Província de Córdoba, autorizou o presidente Carlos Menem a apresentar-se como pré- candidato na convenção de maio do Partido Justicialista (PJ, peronista), destinada a definir a chapa que disputará em outubro a presidência do país com a coalizão oposicionista Aliança União Cívica Radical (UCR)-Frepaso. Menem, eleito pela primeira vez em 1989 e reeleito em 1995, está impedido pela Constituição de 1994 de concorrer ininterruptamente a um terceiro mandato.
Decididos a não esperar pela eleição presidencial de 2003, os ultramenemistas - grupo de fiéis seguidores de Menem - mobilizaram um exército de advogados e juízes para determinar se os constituintes de 1994 "excederam-se em suas funções" ao aprovar uma cláusula que impede Menem de disputar uma segunda reeleição.
Nos próximos dias, o parecer será apresentado à Câmara Nacional Eleitoral e, em seguida, à Corte Suprema de Justiça. O anúncio do juiz de Córdoba causou uma reviravolta no panorama político argentino. O espetáculo da campanha eleitoral agora tem uma presença cada vez maior do presidente Menem, que parece decidido a não deixar o poder tão cedo.
A oposição e alguns integrantes do próprio partido de Menem protestaram. É o caso do governador da Província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que não está disposto a adiar seu sonho presidencial por causa de Menem. Duhalde formou uma aliança com um ex-herdeiro político do presidente, o ex-cantor de baladas românticas e ex-governador de Tucumán Ramón Palito Ortega. Um dos dois será candidato à presidência e o outro, a vice. Tudo indica que, pelo peso das duas forças políticas, Ortega disputará a vice-presidência.
Para opositores da Aliança UCR-Frepaso e duhaldistas, Menem tenta violar a Constituição. Impassível, Alberto Kohan, secretário-geral da presidência e fiel escudeiro de Menem há várias décadas, afirmou que, segundo a Constituição, o Judiciário é um dos poderes do país e, consequentemente, o presidente pode apelar para ele. Menem dissimula sua vontade de permanecer na Casa Rosada e sustenta com um sorriso maroto: "Quero voltar à presidência somente no ano 2003."
O governador Duhalde foi vice de Menem no primeiro governo e espera ser presidente desde o fim da década passada. Na época, era o cacique político dos municípios da Grande Buenos Aires. Menem prometeu-lhe que o apoiaria para a presidência no pleito de 1995, mas, empenhado em sua reeleição, acabou adiando o cumprimento da promessa.
A especulação no ano passado sobre uma nova reeleição enfureceu definitivamente o governador de Buenos Aires, onde se concentram 40% do eleitorado do país. Duhalde poderia rachar o partido, avaliam analistas políticos.
Isso se constituiria num acontecimento sem precedentes na história de um movimento político que sempre foi monolítico. A possibilidade de disputar a presidência concorrendo paralelamente ao peronismo de Menem já foi insinuada pelo governador.
Assessores de Duhalde afirmaram que, se o lançamento de Menem for concretizado, não será descartada a possibilidade de formação de uma aliança com o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo.
O ex-ministro é candidato à presidência pelo partido que ele próprio criou há menos de dois anos: Ação Pela República. Cavallo tem a aprovação dos comandantes dos círculos financeiros e a simpatia do empresariado - ao contrário de Duhalde, que é visto como populista pelos órgãos financeiros internacionais e muito "peronista à moda antiga" para o establishment argentino e internacional. Especula-se que Cavallo poderia ser chefe de gabinete de um hipotético governo Duhalde.
Sem Menem na corrida presidencial, o establishment divide seu apoio entre outros candidatos. O raciocíno dos analistas é o de que, com Menem participando, todos os grandes empresários devem ficar a seu lado. E não é à toa: o mapa do novo poder econômico na Argentina foi desenhado a partir das privatizações ordenadas por Menem.
No momento, a estratégia de Duhalde é a de ficar no peronismo e preparar-se para enfrentar Menem na convenção do partido - se for confirmada a pré-candidatura do presidente. Mas Duhalde não ficará de braços cruzados, esperando que o carisma e o poder de Menem liquidem suas posibilidades. O governador de Buenos Aires começará uma série de processos políticos contra o juiz Bustos Fierro. Duhalde não afasta a possibilidade de processar os próprios juízes da Corte Suprema. A ofensiva dele não terminaria aí.
"Teriam de ir para a cadeia", disse o governador Duhalde numa previsão do que deveria ocorrer com os eventuais "autores intelectuais e materiais da violação à Constituição". A declaração foi interpretada como um sinal de que se chegar ao poder, Duhalde não hesitará em permitir um julgamento político a Menem.
O lançamento da pré-candidatura de Menem para um terceiro mandado presidencial poderia ocorrer após a eleição regional de Catamarca, no dia 21. O candidato do PJ é Ramón Saadi, um velho aliado de Menem. Se seu candidato vencer para governador, Menem aproveitará o impacto de uma segunda vitória provincial do governo para anunciar oficialmente sua candidatura. A primeira vitória ocorreu em dezembro, quando o Partido Justicialista de Córdoba obteve o governo da província, uma das mais importantes do país. Essa vitória teve um sabor especial para Menem: Córdoba era um tradicional reduto da União Cívica Radical (UCR) e uma vitória do peronismo parecia improvável. Esse foi outro fator político que deu oxigênio à movimentação pela reeleição do presidente. Outra data fundamental é 9 de abril, quando deverão ser registradas as chapas que concorrem à candidatura presidencial. Nesse intervalo, Menem analisará a repercussão popular de sua provável candidatura.
Finalmente, ocorrerá a convenção do partido, marcada para 9 de maio. Essa data será uma semana antes do décimo aniversário da primeira eleição presidencial de Menem, fato de cujo simbolismo o presidente saberá tirar proveito.
A crise brasileira foi, de certa forma, um presente dos deuses para o presidente argentino. A economia argentina é altamente dependente da brasileira. Por esse motivo, analistas econômicos consideram que este ano será recessivo para o país. Quanto mais as perspectivas econômicas da Argentina parecerem negativas, mais Menem se afirma no poder.
As pesquisas indicam que a população o considera mais preparado para conduzir o país no meio da crise do que seus opositores. Enquanto nos tempos tranquilos Menem se dedica ao jogo de golfe e outras atividades light, as crises - principalmente as que têm origem no exterior, como a crise mexicana ou brasileira - fazem com que ele tire da cartola suas melhores frases e armações políticas. Simultaneamente, a oposição inibe-se com as crises e desaparece da mídia.
O líder do principal think tank do país, Rosendo Fraga, acha que, apesar do desgaste que implicam dez anos de poder, Menem continua ocupando o centro do palco político. Fraga sustenta que a economia será o eixo do debate político este ano, ao contrário de 1997 e 1998, quando ainda era preponderante o debate sobre a ética política e a corrupção, temas que favoreciam a Aliança UCR-Frepaso.
A coalizão de oposição Aliança União Cívica Radical- Frepaso reage com lentidão à ofensiva pela segunda reeleição de Menem. Após um ano e meio na frente das pesquisas, começa a perder terreno para o peronismo. A oposição está assustada? Não exatamente: mais do que isso, está perplexa, sem saber como reagir, enquanto o protagonismo político na TV e nos jornais se divide entre Duhalde e Menem.
O prefeito de Buenos Aires, Fernando De La Rúa, candidato da Aliança UCR-Frepaso, fez um pálido protesto, classificando uma eventual segunda reeleição de Menem como violação da Constituição.
Até a semana passada, segundo as pesquisas, De La Rúa - que na terça-feira se reúne em Brasília com o presidente Fernando Henrique Cardoso - ainda era apontado como provável próximo presidente argentino. Mas a entrada de Menem na corrida presidencial poderá alterar o panorama.
O sinal mais evidente disso está na atuação da mídia, que praticamente não se preocupou em saber o que pensava a momentaneamente inexpressiva Aliança. Parecia que a Aliança era uma agremiação política de outro país.


