Rio, 26 (AE) - Quando atacou o deputado federal Carlos Santana e sua suposta fome por cargos -sintetizada na expressão "Partido da Boquinha"- o governador do Rio, Anthony Garotinho, mirava não o PT que o odeia, mas o que o ama -mais precisamente, a candidatura da vice-governadora Benedita da Silva à prefeitura do Rio em 2000. Essa é a convicção que passa por diferentes setores do PT (inclusive a Articulação) e da frente de esquerdas que apóia o governo Garotinho desde a noite de domingo, quando os petistas reagiram à provocação decretando a retirada de seus quadros da administração estadual.
Um dos que apostam que a candidatura de Benedita foi duramente atingida é o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola. "Foi uma declaração desafortunada, o que pode ocorrer com qualquer um", disse Brizola hoje. "Infelizmente acho que veio em prejuízo da vice-governadora." A mesma convicção é de Domício Mascarenhas, ex-presidente do PT do Rio: "Na prática, Garotinho detonou (inviabilizou) a candidatura de Benedita."
Garotinho tem com Benedita um compromisso assumido no ano passado: retribuir com apoio em 2000 a aliança de 1998, em que os petistas apoiaram o PDT no Rio, ao custo de uma intervenção que virtualmente implodiu o partido. O problema é que o governador não parece disposto a ficar preso a um compromisso com a vice-governadora, já que seu partido insiste na candidatura própria e há outras possibilidades, como o presidente da Assembléia Legislativa, Sérgio Cabral Filho, que poderia pagar o apoio com votos no Legislativa.
Para ficar livre do compromisso, Garotinho tentou inviabilizá-la: atiçou a crise no PT, abrindo um fosso entre a Articulação e os grupos ligados a Santana. É matemático: a Articulação tem pouco mais de 40% do PT fluminense e, sozinha, não tem força para impor a candidatura de Benedita. Precisa do apoio de Santana.
Nos dias que precederam o 18º Encontro Estadual, Garotinho fez críticas ao deputado e, na véspera da reunião, criticou o "Partido da Boquinha". Isso se deu em um ambiente de inquietação aberto pela reforma do secretariado, em que alguns petistas já tinham perdido seus postos.
As provocações e atitudes do governador se refletiram no plenário da reunião do partido. O clímax foi na votação da resolução que determinava a entrega dos cargos, quando a Articulação, em uma manobra desesperada, abandonou o plenário, tentando derrubar o quórum. Não deu certo. Ivanir dos Santos e seu pequeno grupo, tradicional aliado da Articulação, permaneceram. Duas semanas antes, seu cargo, de subsecretário de Direitos Humanos e Cidadania, fora extinto.
"Benedita entregou à vista para receber a prazo", afirmou um integrante do grupo Campo de Ação Popular. Oficialmente, a Articulação não acusa o golpe. O secretário do Planejamento, Jorge Bittar, disse que o fato não enfraquece a candidatura de Benedita. "É um nome forte, acredito que não haja prejuízos mais sérios."

mockup