Candidatos argelinos retiram-se do pleito denunciando fraude Do correspondente Reali Júnior
Paris, 14 (AE) - Seis entre sete candidatos à eleição presidencial argelina decidiram retirar suas candidaturas 24 horas antes do pleito, denunciando "fraude maciça" envolvendo cerca de 500 mil votos de militares, policiais e eleitores das regiões mais longínquas, por exemplo, os nômades do sul do Saara para quem o processo de votação começou uns dias antes.
Na Argélia, militares e policiais antecipam seu voto para poder estar à disposição no dia do pleito. Na noite de hoje (14)
o presidente Liamine Zeroual foi à televisão para anunciar de forma solene que as eleições presidenciais seriam mantidas, considerando "frágeis" as provas e argumentos apresentados pelos seis candidatos que se retiraram da disputa.
Os seis afirmaram dispor de provas de que em diversas seções eleitorais estavam ocorrendo irregularidades e fraudes em favor de Abdelaziz Bouteflika, ministro do Exterior do ex-presidente Houari Boumediéne, tido como o "candidato do poder" e favorito do pleito de amanhã.
Como candidato oficial ele conta com o apoio dos quatro principais partidos representados no Parlamento, incluindo a Frente de Libertação Nacional (FLN), que reúne 80% das cadeiras. Também a mídia impressa e a televisão oficial, muitas vezes acusadas de manipulação do noticiário, trabalham a seu favor. Diversas seções eleitorais teriam recebido 25% de votos suplementares com o nome de Bouteflika para serem colocados nas urnas.
A retirada dos candidatos que se opõem a Bouteflika abre um período de grande incerteza na Argélia no momento da segunda eleição presidencial pluralista da história do país e da qual só participavam candidatos civis. Dessa forma, a denúncia de fraude e suas consequências foram recebidas com grande decepção, principalmente pelos jovens argelinos que acreditavam que o país pudesse sair do ciclo de violência responsável por quase 30 mil mortos nos últimos sete anos - alimentando um sonho democrático.
O aspecto mais positivo no gesto dos seis candidatos foi a disposição comum de não aceitar mais o falso jogo eleitoral do sistema. Eles estão convocando seus eleitores a participar de uma série de manifestações públicas em todo o país sexta-feira, um dia após o pleito.
Diante desses fatos graves, os seis adversários de Bouteflika, Hocine Ait Ahmed, representante da Frente de Forças Socialistas; Ahmed Taleb Ibrahim, apoiado pela Frente Islâmica de Salvação (FIS); Abdalahh Djaballah, islamita; Mokdad Sifi, Youcef Khatib e Mouloud Hamrouche, todos candidatos independentes, exigiam a anulação da votação nessas seções eleitorais. Como o presidente Zeroual não aceitou recebê-los em audiência, ocasião em que pretendiam apresentar as provas materiais da fraude, decidiram por unanimidade uma retirada coletiva de suas candidaturas, anunciando em comunicado comum que não reconhecerão a legitimidade do resultado eleitoral.
Desde o início da campanha, eles vinham denunciando o atual poder militar de favorecer a candidatura do antigo ministro do Exterior. Do ponto de vista constitucional, Bouteflika pode manter sua candidatura, mas na véspera ele havia dito que só admitiria ser eleito num pleito democrático, sem contestação, pois, do contrário, poderia "ir para casa".
O presidente argelino justificou sua posição dizendo que "os candidatos dispõem legalmente de todos os instrumentos para defender seus direitos". Trata-se da Comissão Nacional de Controle da Eleição Presidencial, presidida por um magistrado argelino da Corte Internacional de Justiça de Haia, Mohamed Bedjaoui, que há dias assumiu o compromisso de "não se calar diante da fraude".
Quanto a Bouteflika, diante dos rumores de fraude e ausência de observadores internacionais para garantir a lisura do pleito (impedidos pelo regime militar), assumindo um discurso nacionalista, defendeu a posição oficial do governo militar em nome da soberania nacional: "Não aceito, hoje ou amanhã, ingerência estrangeira no meu país."





