Câncer é a principal causa de morte em 10% das cidades do País
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Há dois anos, um estudo publicado pela Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) estimava que até 2029 o câncer seria a principal causa de morte no País, superando as doenças cardiovasculares e do aparelho circulatório. Dados divulgados nesta segunda-feira (16), no entanto, mostram que o que se esperava para 2029 pode ocorrer mais cedo. Um levantamento feito pelo Observatório de Oncologia do movimento TJCC (Todos Juntos Contra o Câncer) em parceria com o CFM (Conselho Federal de Medicina), aponta um aumento das neoplasias no País. Em 516 dos 5.570 municípios brasileiros, o câncer já mata mais do que qualquer outra doença e a perspectiva é de avanço do número de casos.
O estudo tomou como base os dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do Datasus, entre 1998 e 2015. Somadas, as 516 cidades onde o câncer já mata mais do que qualquer outra doença, registraram 9.865 óbitos. A maioria dos municípios fica em regiões mais desenvolvidas do País, onde a expectativa de vida e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) são maiores. Oitenta por cento das cidades ficam nas regiões Sul e Sudeste, com 275 e 140 localidades, respectivamente. No Nordeste estão 9% (48); no Centro-Oeste, 7% (34); e no Norte, 4% (19).
O Rio Grande do Sul lidera o ranking, com 140 municípios. É naquele estado também que está a cidade com maior número de óbitos. Caxias do Sul teve 669 mortes por câncer, superando a capital paulista (528). Quarenta cidades paranaenses aparecem na lista, duas delas entre as dez primeiras colocadas. Foz do Iguaçu (Oeste) ocupa a sexta posição, com 309 óbitos, e Cambé, na Região Metropolitana de Londrina, ficou em nono lugar, com 147 mortes por câncer.
Os 516 municípios listados no levantamento concentram uma população de 6,6 milhões de habitantes. Onze deles são considerados de grande porte, como Caxias do Sul, o mais populoso da lista, com quase 500 mil habitantes. Outros 27 são de médio porte com população entre 25 mil e 100 mil e 478 são pequenos municípios, com menos de 25 mil habitantes.
"O câncer já é uma das principais causas de morte no mundo. As doenças crônicas são responsáveis pelos óbitos hoje e o câncer é classificado como doença crônica", ressaltou o médico sanitarista e pesquisador do Observatório de Oncologia, Tiago Cepas Lobo. "O estudo mostra que o Rio Grande do Sul merece uma atenção especial e requer um estudo mais detalhado. Enquanto no Brasil o câncer é responsável por 17% das mortes, no Rio Grande do Sul esse percentual é de 34%. Tem alguma coisa naquele Estado que precisa de atenção."
O estudo revelou também que das 9.865 mortes por câncer computadas nos 516 municípios, 57% eram homens e a faixa etária mais atingida pela doença é entre os 60 e 79 anos de idade, onde se concentrou a metade dos óbitos.
CRESCIMENTO
Em todo o mundo, os casos de câncer são responsáveis por 8,2 milhões de mortes anualmente, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), e cerca de 14 milhões de casos são notificados a cada ano. A OMS estima ainda que essas notificações devam crescer até 70% em duas décadas. "As doenças cardiovasculares ainda são a principal causa de óbito no Brasil, mas de 1998 a 2015, o número de mortes por câncer aumentou 90% enquanto as vítimas de doenças cardiovasculares cresceram 36%, o que comprova que os casos de câncer estão aumentando três vezes mais no País", salientou Lobo.
Referência no tratamento de oncologia, o Hospital do Câncer de Londrina recebe pacientes de todo o Paraná, além de outros estados. Oncologista clínico e preceptor da residência médica da unidade, Rivadavio Antunes Menacho de Oliveira observa um aumento do número de pacientes e confirma a tendência de crescimento. Essa alta, afirma o médico, está relacionada basicamente a três fatores. Um deles é uma maior quantidade maior de diagnósticos em razão dos avanços dos métodos de prevenção para câncer de colo de útero, mama, próstata e colorretal, que são os tipos da doença possíveis de se prevenir. Mas o aumento dos casos está associado também a fatores externos, como a exposição solar, poluição e ingestão de alimentos processados, e fatores genéticos e mutacionais.
O superintendente de Atenção à Saúde da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), Juliano Gevaerd, lembra que à medida que mortes decorrentes de fatores evitáveis vão sendo eliminadas pelo avanço de métodos de prevenção e tratamentos, as doenças associadas ao envelhecimento tendem a crescer. "Os cânceres de mama e próstata estão relacionados com o envelhecimento e como a população está envelhecendo, a tendência é aumentar."
'Diagnóstico precoce deve ser priorizado'
"Nosso objetivo é alertar as autoridades para a necessidade de investir mais no diagnóstico precoce porque pelo que a gente avalia, os pacientes chegam em estágio avançado da doença para a sua assistência, reduzindo as chances de cura e aumentando a mortalidade", disse a presidente da Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) e idealizadora do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, Merula Steagall.
Ela lembra que o cumprimento da lei federal 12.732/12, que determina o início do tratamento contra o câncer em até 60 dias após o diagnóstico, ainda não está ideal, embora 80% dos pacientes consigam iniciar o tratamento no prazo legal. "A demora é chegar no diagnóstico. Entre o aparecimento dos primeiros sintomas e o diagnóstico, a demora é de mais ou menos seis meses."
"Há uma dificuldade de acesso ao tratamento apesar da normativa legal. Também é difícil o acesso aos exames de oncologia, como a mamografia. O acesso ao diagnóstico e tratamento está muito abaixo do que se espera no Brasil", comentou o diretor de Comunicação do Conselho Federal de Medicina, Hermann Alexandre Vivacqua von Tiesenhausen. "A nossa intenção com esse estudo é que ele ajude na gestão da saúde."
Steagall também cobra a criação de mais 150 centros de atendimento à oncologia no Brasil. "A maior parte dos doentes e dos centros de tratamento está na Região Sudeste. Em algumas regiões onde não tem estrutura, pode ser que tenham mortes que não estejam registradas porque não chegaram nem a um diagnóstico."
Oncologista clínico do Hospital do Câncer de Londrina, Rivadavio Antunes Menacho de Oliveira ressalta que um dos tipos de câncer que mais cresceram no País nos últimos anos, o colorretal, poderia ser evitado em boa parte dos casos se toda a população fizesse o exame de colonoscopia a cada dez anos a partir dos 50 anos de idade. "Esse tipo de câncer já é o segundo entre as mulheres e o terceiro entre os homens, e é causado principalmente pelo estilo de vida", alertou. "Infelizmente, o SUS não disponibiliza a colonoscopia como prevenção de câncer colorretal. O que o SUS coloca na normativa para esse tipo de câncer é o exame de sangue nas fezes, mais rápido e barato, mas que não é muito bom porque dá muito falso positivo. E o SUS não tem prognóstico de aumentar o acesso." (S.S.)


