Rio, 16 (AE) - A Advocacia-Geral da União (AGU) está estudando uma forma de processar as indústrias de fumo nos Estados Unidos, pedindo o ressarcimento dos gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com doenças causadas pelo cigarro. O anúncio foi feito hoje pelo ministro da Saúde, José Serra, que calcula o valor inicial da ação entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões. A medida está dentro da ofensiva do ministério contra o tabagismo. Hoje, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou que, este ano, o câncer deverá matar 104.200 pessoas no País, 23% a mais do que há 20 anos - e o fumo é o responsável por 30% dos óbitos.
Serra lembrou que, nos EUA, as companhias de cigarro já fecharam acordos indenizatórios com os Estados e o Brasil quer usar a brecha aberta por esse precedente. "A maioria das indústrias é americana e vamos tentar um processo por lá, utilizando escritórios de advocacia dos Estados Unidos especializados no assunto", disse. Segundo ele, não é possível, pela legislação brasileira, ingressar com essa ação no País. A proposta foi apresentada pelo ministério a AGU há três meses e ainda não há previsão de quando será formalizada. "Outros países já entraram com esse tipo de ação, porque existem precedentes favoráveis", apontou.
A cruzada contra o fumo também será ampliada com a nova campanha do ministério para as frases condenando o cigarro, que acompanham os maços e as peças publicitárias. Uma medida provisória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária liberou o Ministério da Saúde para utilizar o espaço com frases mais contundentes. Os novos avisos estão sendo elaborados. "Minha frase favorita é a do cigarro para o fumante: hoje, você me acende e, amanhã, eu te apago, mas é grande demais", brincou Serra. O ministro esteve hoje no Inca para inaugurar o Centro de Oncologia Pediátrica do hospital. Requeijão - Os dados do Inca mostram que os alimentos são a causa de 35% dos cânceres e, por isso, o ministro defende que o mesmo tipo de aviso usado para prevenir contra os males do fumo venha nas embalagens de produtos industrializados com alto teor de gordura. Ele disse que há uma comissão no ministério estudando essa possibilidade, aberta pela MP da Vigilância Sanitária. "O (requeijão) Catupiry tem 900 calorias em 100 gramas", exemplificou. "É a coisa que mais engorda no mundo e quem come isso de saber dessa informação, de que é uma bomba calórica".
Serra aproveitou para alfinetar a Câmara dos Deputados, onde continua até hoje o projeto de estender a proibição de propaganda de cigarro das 21 horas à meia-noite. "Por que algum desses deputados politicamente corretos não assume essa causa?"
provocou. Pulmão - Os números divulgados pelo Inca mostram que o câncer de pulmão cresceu de forma assustadora entre as mulheres: passou a matar duas vezes mais brasileiras entre 1980 e 1996. Entre os homens, será o responsável, este ano, por 12,2% dos óbitos.
O instituto estima que surgirão 261.900 novos casos de câncer no País este ano. A doença é a terceira maior causa de mortes no Brasil, sendo responsável por 11,38% dos óbitos. Segundo o diretor do hospital, Jacob Kligerman, diferenças regionais de hábitos alimentares e condições sanitárias influenciam no quadro nacional. Por exemplo, enquanto no Norte e Nordeste predominam o câncer de estômago entre os homens e de colo do útero, entre as mulheres, no Sul, Sudeste e Centro-Oeste
aparecem na ponta do ranking o câncer de próstata e o de mama.
"Há, nos grandes centros, uma melhor possibilidade de diagnosticar o câncer de próstata e o de mama está relacionado à alimentação mais industrializada", apontou. Na Região Sul, onde há uma proporção maior de fumantes em relação ao resto do País, o câncer de pulmão é o mais comum.

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