Cancelamento da negociação radicaliza crise Do enviado especial Lourival Sant'Anna
Bogotá, 19 (AE) - O governo colombiano elevou nesta segunda-feira (19) o tom belicista contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), confirmando a impressão de que o processo de paz chegou a seu pior momento e está congelado
depois do cancelamento do encontro que ocorreria hoje em Uribe (na "zona de distensão" do centro-sul do país) para o lançamento efetivo das negociações.
Os indícios são de que o presidente Andrés Pastrana pretende isolar ainda mais as Farc, cujos principais líderes continuam mergulhados na selva montanhosa da região que controlam, sem dar explicações.
O comandante das Forças Armadas colombianas, general Fernando Tapias, referiu-se hoje à guerrilha de uma maneira que não se tinha ouvido desde o início do processo de paz, em novembro, quando o Exército se retirou da área de 42.000 quilômetros quadrados ocupada pela guerrilha. "Nenhum delinquente gosta que o controlem", disse o general, ao comentar a recusa das Farc em permitir a instalação de uma comissão internacional de verificação da situação na zona de distensão.
A discordância originou o impasse. As Farc são acusadas pela Defensoria del Pueblo (equivalente ao Ministério Público) de realizar execuções e sequestros na área e, pelos militares, de utilizá-la como base para ataques fora dela.
Qualificando o cancelamento da reunião de "frustrante" e a posição das Farc de "insensata", o comandante disse que ela é "uma amostra de que a guerrilha gosta de dar golpe após golpe no povo colombiano". Tapias lembrou que "a Colômbia é uma democracia", mas os guerrilheiros "não estão lutando por nada, a não ser pela proteção ao crime", numa referência incomumente explícita às ligações entre a guerrilha e o narcotráfico. A ocasião das declarações do comandante também foi significativa: uma cerimônia de condecoração de 37 militares feridos em combates com a guerrilha, num hospital militar de Bogotá.
"O discurso do governo e das Farc se militarizou", lamentou, em entrevista à Agência Estado, o escritor Arturo Alape, intelectual simpatizante da guerrilha que a imprensa colombiana ouve frequentemente para interpretar a visão dos guerrilheiros.
De acordo com Alape, havia sido acertada na reunião entre Pastrana e o líder máximo das Farc, Manuel Marulanda (ou Tiro Certo), em 2 de maio, a formação de uma comissão para "acompanhar" a situação na zona de distensão. "Agora, o governo quer uma comissão para exercer controle sobre a área" - o que a guerrilha não aceita.
"O futuro do processo de paz é incerto, porque não estão decididas as regras do jogo", explica o escritor, acusando tanto as Farc quanto o governo de "prepotência", depois de haverem obtido, uma e outro, vitórias em combates. "A situação militar ficou muito mais complexa, com evidências da participação americana no conflito."
Moradores do Departamento do Meta disseram ter visto aviões com bandeira norte-americana apoiando a Força Aérea colombiana, na contra-ofensiva da semana passada. A Colômbia recebe anualmente ajuda americana de US$ 256 milhões para o combate ao narcotráfico e solicitou na semana passada outros US$ 250 milhões ao ano, mais o empréstimo de armamentos e equipamentos do Comando Sul. Mas tanto os EUA quanto a Colômbia negam que haja ou possa haver participação norte-americana direta em combates.
Enquanto as negociações com as Farc mergulham no impasse, o presidente Pastrana se move na direção de retomar o processo de paz com um grupo guerrilheiro menor, mas igualmente aguerrido e desestabilizador: o Exército de Libertação Nacional (ELN).
O presidente recebeu hoje no Palácio de Nariño os representantes das famílias dos sequestrados pelo ELN de um avião da Avianca e de uma igreja na periferia de Cali.
Diante da disposição do governo em negociar, os parentes dos sequestrados fizeram um apelo, em entrevista coletiva no palácio
para que o ELN esclareça quem é seu representante nas negociações. O papel é disputado entre o deputado Bernd Schmidbauer, ex-chefe do serviço secreto alemão, e um sinistro casal, Werner e Michaela Mauss, seus ex-agentes.
A libertação dos reféns é a condição imposta pelo governo para negociar a paz com o ELN. Por sua vez, o ELN realizou os sequestros, em março e abril deste ano, para pressionar o governo a iniciar efetivamente o processo de paz com o grupo. O governo o havia preterido em favor das Farc, que têm estimados 15.000 guerrilheiros, enquanto o ELN possui cerca de 4.000.
Desde a eleição de Pastrana, há um ano, o ELN, aparentemente asfixiado por falta de recursos, demonstrara muito mais pressa do que as Farc - e o próprio governo - em obter um acordo de paz. Agora, parece ter chegado a sua vez.





