Campos toma posse na ABL
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segunda-feira, 25 de outubro de 1999
Por Adriana Ferreira e Roberta Jansen 
Rio, 26 (AE) - O ex-ministro do Planejamento (governo Castello Branco) e economista Roberto Campos, de 82 anos, defendeu hoje, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), o regime militar brasileiro e criticou duramente o comunismo, ideologia defendida pelo dramaturgo Dias Gomes, seu antecessor na cadeira número 21 da ABL.
"No Brasil, tivemos uma autoritarismo encabulado, que admitia o pluripartidarismo, que mantinha, ainda que manipuladas
instituições democráticas", afirmou, lembrando que, na ocasião
"a única opção ao golpe seria o autoritarismo de esquerda" que, segundo ele, seria "rígido e sanguinário". As declarações de Campos aumentaram ainda mais a polêmica em torno de sua eleição para a cadeira antes ocupada por Gomes.
Em seu discurso, Campos elogiou longamente o dramaturgo, mas também criticou suas opções políticas. "Tanto em seu discurso de posse nesta academia como em sua autobiografia, Dias desfolha um libelo contra os chamados anos de chumbo", afirmou. "Não se menciona sequer minimamente alguns aspectos positivos como o fato de o Brasil, nesses anos, ter passado da retaguarda dos emergentes para a posição de oitava potência industrial do mundo." Campos deu ainda uma alfinetada no dramaturgo, ao classificar o teatro de "arte intimista frequentada pela elite burguesa". Segundo o economista, a democratização da mensagem de Gomes "só viria com a televisão, instituição capitalista". Ele classificou ainda o comunismo como a "mais sangrenta das ideologias", como um sistema político que "institucionalizou a delação, a censura e os expurgos". Disse também não entender como os intelectuais brasileiros "se deixaram seduzir por tal ideologia".
O discurso pode ser considerado uma resposta à viúva de Gomes, Bernadeth Lyzio, que ameaçou, como forma de protesto, retirar o corpo do escritor do mausoléu da ABL, caso Campos fosse eleito para a cadeira que pertencia ao seu marido. Os filhos de Gomes, Guilherme, Denise e Alfredo, ao contrário, não se opuseram à candidatura de Campos, eleito em 23 de setembro, porque consideraram a eleição democrática. Eles não compareceram à cerimônia, mas enviaram uma nota de saudação a Campos: "Cabe-nos dizer que inteligências luminosas não se conflitam, ao contrário, somam-se", escreveram.
Protesto - O cartunista Jaguar fez um protesto às 17h na ABL. Ele colocou três ovos cozidos na calçada na frente do prédio da academia. "É para que o novo imortal chegue à academia pisando em ovos, assim como todos que votaram nele", disse. "De todas as hipocrisias que vi na ABL essa é a pior." Jaguar estava vestido com uma farda. Estiveram presentes na posse o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, representando o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador de São Paulo Paulo Maluf, o prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde e o vice-governador de Mato Grosso (Estado natal de Campos), José Rogério Sales.
Em seu discurso de posse, que começou pontualmente às 21h, Campos ressaltou que a cadeira 21 foi ocupada, ao longo dos anos, por pessoas de ideologias políticas opostas, alternando liberais e comunistas.
Outros imortais também ressaltaram a característica democrática da cadeira. "A academia foi fundada unindo monarquistas e republicanos em prol da cultura brasileira", lembrou o acadêmico e ex-presidente José Sarney. "Esquerda e direita são conceitos ultrapassados, de quem viveu antes da queda do muro de Berlim", disse Maluf.


