Campinas, SP, 27 (AE) - Crianças e adolescentes viciados em drogas que vivem nas ruas de Campinas serão obrigados pela prefeitura a se submeterem a um tratamento médico para desintoxicação e reabilitação. O programa será desenvolvido em conjunto pela secretaria municipal de Assistência Social, Conselho Municipal de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente, e Vara da Infância e Juventude. O governo do Estado já liberou R$ 180 mil para financiar o trabalho.
"É o último recurso para tentarmos evitar que essas crianças morram nas ruas", diz o secretário municipal de Assistência Social, Arly de Lara Romêo. Um levantamento concluído em abril revelou que há 84 menores vivendo em situação de mendicância nas ruas centrais. Desses, 32 são viciados em crack. Segundo os técnicos que realizaram a pesquisa, eles compram a droga com dinheiro recolhido de motoristas nos semáforos.
"Já tentamos de tudo para salvar estas crianças, e nada deu certo", afirma o secretário. Segundo ele, há mais de um ano equipes de educadores de rua vêm tentando conscientizá-los dos riscos causados pelo envolvimento com drogas, mas a receptividade tem sido pequena. "Não podemos simplesmente alegar que nada mais pode ser feito e abandoná-los à própria sorte", diz Romêo.
O secretário conta que a prefeitura demorou um ano para desenvolver o projeto. A proposta de internação compulsória foi avaliada pela secretaria municipal de Saúde, Vara da Infância e Juventude e Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. No início, segundo Romêo, a medida esbarrava na posição de alguns técnicos, segundo os quais a criança deve decidir se deseja se submeter a algum tipo de tratamento.
"A legislação diz que a criança tem o direito de decidir, desde que esteja em condições de raciocinar com clareza, o que não é o caso destes menores viciados", explica o secretário. "Essas crianças estão doentes, prostradas, e precisam ser socorridas, independente da sua vontade", completa. Segundo ele
o trabalho de abordagem e convencimento será feito por psicólogos e assistentes sociais da prefeitura. "Não haverá nenhum tipo de violência", garante.
O tratamento médico para desintoxicação e reabilitação será coordenado pelo hospital psiquiátrico Cândido Ferreira. As crianças, porém, não ficarão no prédio principal da instituição, onde também são abrigados pacientes adultos e com diferentes tipos de patologia. O tratamento será feito em casas separadas, onde o hospital já desenvolve trabalhos nessa linha.
As crianças e adolescentes que serão submetidos ao tratamento só receberão alta depois de apresentarem sinais de recuperação. Durante o período em que permanecerem na unidade, os técnicos da prefeitura realizarão o acompanhamento social, a fim de reconduzí-los às famílias. "O trabalho paralelo com a família é importante, para evitar que a criança sofra uma recaída", explica.
O juiz da Vara da Infância e Juventude, Erson Theodoro de Oliveira, disse que aguarda apenas a liberação do local onde as crianças ficarão, para autorizar as internações. Segundo ele, porém, o termo "internação" é impróprio, porque os pacientes não ficarão presos, mas abrigados. "Autorizamos o tratamento, porque em casos graves, a intoxicação é tão profunda, que a criança já não tem condições de discernir", explica.

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