Campeã troca judô por faxina
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de maio de 1999
Por Renan Antunes de Oliveira, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Nova York, 17 (AE) - O telefone toca no sobrado de madeira da Rua Ferry. É a voz de uma madame americana, procurando pela faxineira "Édlin" - mas o nome certo é Edilene.
"Yes, estou encarando qualquer serviço", responde Edilene Andrade, 28 anos. Pentacampeã brasileira de judô peso pesado, atleta da equipe olímpica em Barcelona e Atlanta, oitava melhor do mundo até o ano passado, hoje ela é faxineira na periferia de Nova York.
A mudança radical na carreira da judoca mineira começou em fevereiro, com a crise do real. Sem patrocínio no Brasil, ela se mudou para a cidade de Newark, em New Jersey, para viver de faxinas - lá, já está ganhando US$ 800 por mês.
No auge da carreira, Edilene era financiada pelos cofres generosos do Banco do Brasil. Nos últimos tempos, lutava com o magro apoio do petista Chico Ferramenta.
Sua última competição internacional foi na Inglaterra, no ano passado. Para manter-se, ganhava R$ 450 como professora numa escolinha de judô em Ipatinga (MG) - celebridade local, seu nome era garantia suficiente para atrair a criançada.
Em fevereiro, incapaz de treinar para novos desafios na carreira internacional, Edilene jogou a toalha: "Desisti, sai do Brasil para poder continuar lutando, lá não se tem o menor apoio", queixa-se, repetindo a ladainha dos amadores.
Ao sair do Brasil, Edilene temia ter que abandonar a carreira tão cedo - mulher judoca pode lutar até os 35 anos. Em Newark, foi descoberta por uma academia local, sendo convidada a treinar. "Já não me sinto tão desanimada, mas o que eu gostaria mesmo era competir pelo Brasil", diz - e se desmancha toda, com lágrimas nos olhos.
A moça durona no tatami é uma manteiga derretida na hora da entrevista. Talvez por causa da difícil adaptação nos EUA, ela chora cada vez que fala nos pais, na comidinha da mamãe. Também chora de saudades de Ipatinga, pelo Brasil - e até quando menciona colegas e treinadores queridos que teve que deixar.
O currículo da judoca-faxineira: 1991, campeã pan-americana. 1992, nona colocada nas Olimpíadas de Barcelona. Até 1996, penta brasileira. Venceu torneios nos Estados Unidos, Itália e Colômbia. Disputou o mundial na França, em 1997. No ano passado, foi vice na Inglaterra e terceira num torneio na Holanda.
A nova rotina profissional de Edilene é faxinar casas e restaurantes. Como está com 98 quilos, três quilos acima do peso ideal para lutas, ela bolou exercícios originais para manter a forma, empurrando aspirador e enceradeira, fazendo ginástica com baldes e vassouras.
No momento, está treinando com quatro clientes fixos. Eles lhe tomam oito horas de trabalho por semana - ela espera conseguir mais para melhorar o condicionamento físico e aumentar a renda.
Edilene anda muito amargurada com a vida nova. Em Ipatinga, ela vivia numa casa confortável, com os pais e irmãos. Nos Estados Unidos, casada com um carpinteiro piauiense que trabalha na Filadélfia, ela vive num quarto alugado num sobrado de madeira, hóspede de uma dançarina de go go.
Seu novo desafio: economizar para comprar uma casa em Ipatinga. Essa luta pode demorar cinco anos. "Tenho medo que nesse meio tempo meu país precise de mim e eu não possa competir", lamenta. "Mas quero que saibam que eu não o abandonei. Um dia eu vou voltar, é lá que quero pendurar meu quimono", promete.


