Rio- Quarenta organizações não-governamentais, capitaneadas pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e integrantes da rede Diálogos contra o racismo, lançaram ontem a campanha nacional ''Onde você guarda o seu racismo?'', com o objetivo de incentivar as pessoas a identificarem o próprio preconceito e livrarem-se dele. A campanha inclui comerciais para a tevê, outdoors, e cartazes. ''Racismo é racismo em qualquer situação, dissimulado ou não. E o Brasil é um País racista. Essa campanha nos coloca numa situação direta e eu acredito na força da imagem como convite à reflexão'', disse a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que esteve no lançamento.
Os comerciais, que vão ao ar a partir do mês que vem, inicialmente na Rede Globo, mostram as respostas que as pessoas dão à pergunta-mote da campanha. Foram entrevistadas 330 pessoas comuns, nas ruas - não há artistas ou atores contratados.
Algumas reconhecem que guardam o racismo ''na cabeça'', ''na pele'', ''nas piadas'' ou ''no medo''. Outras revelam o próprio preconceito ao negarem ser racistas: ''Não sou racista, mas a sociedade me obriga a ser'', ''Não sou racista. Talvez eu simplesmente não goste de gente que faz coisas erradas'', ''Como é que eu vou ser racista se minha noiva é morena?''. Uma criança faz expressão de surpresa: ''Racismo?!''. Cada comercial termina com a frase ''jogue fora o seu racismo''.
''O racismo está na nossa linguagem, na nossa forma de pensar. Mas é importante lembrar a dor que o racismo produz e pensar como ele pode ser a causa da violência que a gente vive'', disse a publicitária Nádia Rebouças, diretora da agência Rebouças e Associados, que fez a campanha voluntariamente. A intenção de Nádia é que a campanha tenha desdobramentos, seja discutida em empresas e escolas. Para isso foram produzidos mais dois cartazes. Um deles mostra uma criança e a pergunta ''O que você fala para seus filhos sobre o seu racismo?''. O outro é um desafio: ''Imagine uma pessoa importante, linda, culta e elegante. Você não pensou em alguém negro, pensou?''.
Durante a apresentação da campanha, três negros deram depoimentos sobre situações em que foram vítimas de racismo. Joel Bispo Jorge, primo do dentista Flávio Santana - morto pela polícia paulista, em fevereiro, ao ser confundido com um criminoso -, contou o drama da família em busca do corpo e a luta para desfazer o ''auto de resistência'' forjado pela polícia. O segurança Arnaldo Matias Pereira disse que, ao tentar cumprir a determinação do shopping em que trabalhava, foi agredido por um empresário e seu filho. ''Eles me chamaram de negro sujo, me compararam a cocô de cavalo. A Justiça mandou que eles me indenizassem em 300 salário mínimos, na segunda instância o valor caiu para 10 salários mínimos. Agora o processo está em Brasília''.
Os depoimentos emocionaram a ministra Matilde Ribeiro, que revelou que aos 17 anos foi abordada na rua pelo produtor de shows de mulatas Oswaldo Sargentelli. ''Você é uma negra linda e pode ficar rica'', ele disse. ''Ele não disse que eu era uma mulher linda, mas uma negra linda. Por que negra só pode ser dançarina ou doméstica? Decidi ali que poderia ser tudo na vida, empregada doméstica, como já tinha sido, auxiliar de escritório, que era o meu emprego na época, ou assistente social, que é o que eu sou. Mas nunca me deixaria encantar (por proposta como aquela)'', disse.

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