Paris, 05 (AE) - Uma campanha está sendo lançada na França pelas organizações ecológicas Robin des Bois e Agir Aqui contra a utilização extensiva e abusiva do ipê do Brasil em pisos de obras públicas, como se a estética da arquitetura pudesse ser privilegiada em relação à preservação dessa madeira da floresta amazônica. Isso porque, depois de acarpetar em 92 toda a esplanada da nova Biblioteca Nacional da França (uma das obras faraônicas do presidente Mitterrand) com essa madeira nobre brasileira, as autoridades francesas querem fazer o mesmo com a nova Passarela Solferino.
Para pedestres e atualmente em construção, a passarela permitirá a travessia sobre o Rio Sena, ligando as margens direita e esquerda do rio, entre o Museu DOrsay e o Jardim das Tulherias. A denúncia também visa impedir a construção de 20 bancos com a madeira doussié da República dos Camarões.
A partir da utilização do ipê na esplanada da Biblioteca Nacional, os arquitetos franceses parecem ter decidido eleger esse tipo de madeira, em grande parte adquirida no Pará, para decorar algumas de suas principais obras. Hoje, o ipê-amazônico pode ser encontrado no imóvel do Banco da França, em Montpellier
no cais Henri IV de Dieppe e mesmo nos bancos dos Champs Elysées, em Paris. O pior é que a madeira não parece ser a mais adaptada ao clima europeu, pois críticas têm sido feitas à sua qualidade para os fins indicados por arquitetos.
Rachaduras - Um relatório do Tribunal de Contas da França adverte sobre os problemas constatados com sua utilização no imóvel da Biblioteca Nacional : "Rachaduras ou descolamentos afetam os panéis de ocultação da fachada da biblioteca."
Essa utilização extensiva fez com que a madeira, que até 1992 estava na 12ª posição entre as vendidas no Brasil, hoje já está na 5ª posição. Segundo Claude Sastre, professor do Museu de História Natural, o ipê reúne diversas espécies, algumas desconhecidas. A seu ver, essa utilização poderia ser aceita se para cada árvore derrubada outra fosse plantada.
A França, em vez de utilizar o ipê, poderia adotar uma solução bem européia, com o carvalho. Segundo o diretor do Espaço Rural e da Floresta, "as qualidades tecnológicas e estéticas do carvalho suportam perfeitamente a comparação com madeiras tropicais". As organizações de defesa do ambiente estão solicitando um reexame urgente do problema, cientes de que um boicote dessa maneira não adiantaria nada, pois sua demanda é também muito grande nos países asiáticos.

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