Caminhoneiros contam dificuldades da categoria
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de julho de 1999
Por Fabiana Gitsio e Gustavo Alves 
São Paulo, 28 (AE) - Enquanto aguardavam o policiamento de choque na Rodovia Castelo Branco, hoje, que os obrigaria a interromper o protesto para prosseguir viagem, os motoristas contavam as dificuldades que afligem a categoria. "O óleo sobe, o valor do frete é baixo e o pedágio só aumenta, em preço e quantidade", resumiu o caminhoneiro Geraldo Pimenta Filho, que voltava para casa depois de levar uma carga de conhaque até Anápolis, em Goiás.
Embora seja dono de um caminhão que está completamente quitado, ele acha que os obstáculos a transpor ainda são muitos. Segundo Pimenta Filho, as despesas com diesel consomem mais da metade dos R$ 1,3 mil que recebe a cada viagem. Antes da alta, enchia o tanque com 95 reais. Agora, são necessários 136 reais. Resultado: a cada viagem, "fogem" das mãos dele 800 reais. "O frete continua o mesmo."
O caminhoneiro Édson de Almeida, que dirige um caminhão-caçamba, afirmou que foi incentivado pela própria chefia a participar do protesto. Isso porque o valor do frete não é negociável. "Os patrões também não estão aguentando mais; o governo quer tudo só para ele", disse.
"Se a gente fizer conta, não trabalha", fez coro o colega Antônio Carlos de Almeida. Microempresário que mora em Itu, no interior de São Paulo, a crise trouxe-o de volta ao volante para fazer bicos com o objetivo de ajudar no orçamento. Almeida tinha abandonado as estradas em 1988.
"Dinheiro até se ganha, mas fica tudo em multa, pedágio
óleo diesel e na caixinha para os guardas", contabilizava o trabalhador José Carnelós. Caminhoneiro há 25 anos, Carnelós disse que gasta quase 70% do que ganha em diesel. "Aí, não sobra para pagar a prestação do caminhão", disse. Pelos cálculos dele, seria necessário ganhar 1,50 real por quilômetro rodado, em vez dos 80 centavos que recebe.
As perspectivas não são boas: ele paga R$ 2,4 mil por mês de financiamento, três das prestações estão atrasadas e ainda faltam mais de 20. "Vai embora, fecha e larga o caminhão na estrada que assim eles não vão ter como nos tirar", aconselhava aos primeiros colegas que começaram a debandar logo que o policiamento de choque começou a chegar. Ele prometia não sair, mas foi vencido.
"Quem sabe o cara que levou uma borrachada não vai deixar o combustível num posto de gasolina para o guarda poder sair com a família no fim de semana", disse o caminhoneiro Marcos Antônio de Almeida. Ele referia-se ao tumulto abortado pelo policiamento de choque, que conteve a cassetetes um motorista que tentava jogar pedras nos policiais. "Aquele que comprou um caminhão financiado para trabalhar e está tendo lucro é mágico", concluiu. O caminhoneiro Francisco Pesci resolveu desafiar os militares. "Por que estão batendo em todo mundo?", disse. "Nosso protesto é só para melhorar nossas vidas."
Na Rodovia Washington Luís, no Rio, o dono de um dos veículos, o produtor rural Mauro Yamamoto, transportava 200 caixas de verduras para a Ceasa (em Irajá, na zona norte do Rio) e contou que, se ficar parado por muito tempo, terá um prejuízo de R$ 1 mil com a perda do carregamento. A carga de Yamamoto era a produção do sítio dele em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. "Ontem (27), liberaram minha passagem", disse.
Hoje, os caminhoneiros receberam apoio de cerca de mil manifestantes sem-terra que participam da Marcha Popular pelo Brasil, caminhada na qual o movimento pretende chegar a Brasília no início de outubro. Os caminhoneiros almoçaram com os sem-terra, que, depois, seguiram para Santa Cruz da Serra, distrito de Duque de Caxias, na Região Metropolitana do Rio, onde pernoitariam.


