Caminho para a paz ainda está cheio de obstáculos Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 10 (AE) - Os sérvios perderam pois a guerra contra as dezenove potências da Otan: "Cinco mil mortos contra zero" - proclama cinicamente (ou triunfalmente, ou vergonhosamente?) a imprensa americana.
O fim do pesadelo sofrido pelos kosovares massacrados, pelos sérvios bombardeados, não pode deixar de causar alegria. Além disso, cada uma das potências participantes da operação se ufana
se emproa, se embandeira e explica que foi ela que ganhou a guerra: Os Estados Unidos, porque têm muitos aviões e muitas bombas. Os ingleses, porque Tony Blair manteve firmemente o moral da Aliança, exortando seus vizinhos à firmeza. A Alemanha e a Itália, porque se opuseram sabiamente a uma operação terrestre que teria sido uma carnificina. A França, porque...Chirac é Chirac e porque Jospin é Jospin. Além disso, a França foi quem soube reintroduzir inteligentemente a Rússia no jogo.
Esta safisfação geral, estas "auto-felicitações" entusiastas são legítimas. Mais estranho é o comportamento dos vencidos: em Belgrado, na noite de quarta-feira, multidões delirantes comemoraram, numa cidade em farrapos, a vitória do Exército sérvio contra os dezenove Exércitos coligados contra ele.
Porque empanar esta alegria universal e contraditória com uma gota de tristeza, uma ponta de medo? - É forçoso reconhecer que numerosos obstáculos atravancam ainda o caminho da paz.
Uma lista - não exaustiva - desses obstáculos: Em Rambouillet
os líderes kosovares do ELK (Exército de Libertação de Kosovo) haviam conseguido a promessa de auto-determinação da província de Kosovo.
Hoje, após a provação, os kosovares mais radicais falam de independência. Ora, nos documentos da ONU, não há nenhuma alusão a este problema crucial da independência eventual por autodeterminação.
Milosevic foi acusado pelo Tribunal de Haia de crimes contra a humanidade. Os ocidentais, com razão, anunciaram que não concederão sua ajuda para a reconstrução do país se Milosevic não deixar o poder. Mas, se Milosevic se mantiver no governo, que se há de fazer? Recusar toda ajuda à Iugoslávia? Abandonar este país à inanição, ao desespero, às suas pontes destruídas, às suas fábricas em cinzas, à fome, à sede?
Outra bomba-relógio: os 17 mil combatentes kosovares do ELK não irão se vingar dos 200 mil sérvios que vivem ainda em Kosovo? E os soldados do ELK (antigos maoistas, patriotas, mafiosos, etc.) não são nada brandos e compassivos.
As minas: o subsolo kosovar está recheado de minas explosivas. É verdade que os negociadores da Otan exigiram que Milosevic lhes entregasse os planos dos campos minados. E Milosevic entregou. Mas, as milícias sérvias que escapam a todo controle, também encheram o subsolo com seus abomináveis artefatos explosivos.
Outra questão que começa a ser levantada nas chancelarias: as condições drásticas impostas à Sérvia deveriam, logicamente, provocar uma revolta das populações sérvias contra Milosevic, que arrastou o país ao desastre. E, portanto, acelerar uma eventual mudança de regime em Belgrado.
Correto. Mas, nesse caso, qual a facção que irá assumir o poder das mãos manchadas de sangue de Milosevic? Os democratas, que não têm uma grande tradição nestre país? Ou os ultra-nacionalistas, os generais, ainda mais extremistas do que Milosevic?
Mas, emfim, não vamos estragar a festa. No momento, o barômetro está na paz, no céu, finalmente azul, e não se pode deixar de congratular-se com isso. Um sinal de que esta paz está de volta: desde ontem, as delegações das diferentes nações participantes da Aliança recomeçaram suas pequenas disputas habituais, disputas já tradicionais na Otan, mas que tinham sido esquecidas há três meses para não perturbar a "Sagrada União" dos povos livres diante de Milosevic.





