Caminho longo, mas necessário
Londrina - O promotor de Justiça Murillo José Digiácomo, integrante do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente do Paraná, diz não enxergar aspectos negativos na lei nº 12.010/2009. Para ele, o texto é um importante instrumento de mudança, e possíveis avanços ou retrocessos estão ligados à aplicação ou não da lei. "O objetivo é aperfeiçoar a política de efetivação da convivência familiar. A adoção, atualmente, é apenas uma das alternativas. Criaram-se novas formas de convivência familiar, como a guarda subsidiada. Mas infelizmente esta é uma possibilidade pouco difundida nos municípios", afirma Digiácomo.
Ele lembra ainda que a lei procurou moralizar a adoção. Burlar as regras, para o promotor, é passo certo para problemas futuros. "As pessoas não devem usar de meios escusos (como por exemplo, a adoção à brasileira). Todo relacionamento que começa de forma ilegal fatalmente terá consequências futuras." Digiácomo argumenta ainda que o processo de adoção não é necessariamente moroso, mas pode se tornar, dependendo do que as pessoas almejam. "Se os pretendentes se propuserem a adotar as crianças e adolescentes que estão aptos nos abrigos, às vezes em grupos de irmãos, o processo demora menos que uma gestação. Mas existe uma tendência a achar que as crianças que já estão disponíveis não servem."
O promotor defende que a adoção deve ser vista como um ato de amor, necessário para resolver uma situação cruel existente hoje nas instituições. Por isso, não deve se restringir a recém-nascidos. "É preciso que as pessoas abram seus corações e conheçam a realidade que hoje enfrentamos. Com certeza elas vão mudar de posição", aposta Digiácomo.
Foi com o coração aberto que o casal Cristhian Sanches de Souza e Luciana Aurora Pradal Souza chegaram até Mateus e Ana Luiza, hoje com 9 e 7 anos, respectivamente. Eles nunca desejaram adotar um recém-nascido, mas durante um tempo só pensavam em um menino. "Soubemos da história de um garoto de 5 anos que, na época do Natal, pediu de presente um pai e uma mãe. Aquilo nos tocou demais, e nos decidimos pela adoção tardia. Vimos que havia muitas crianças nos abrigos desejando uma família e que nós estávamos ali, querendo um filho", conta Cristhian.
O perfil de criança definido a princípio pelo casal (menino, de 2 a 4 anos) demorou a surgir. Foram três anos de espera. "Decidimos então incluir a possibilidade de adotarmos uma menina, e imediatamente ficamos sabendo do caso destes irmãos." A mudança de planos só trouxe alegria para Cristhian e Luciana, que hoje reconhecem a importância de todo o processo vivido. "É um caminho árduo, desgastante às vezes, mas necessário. O fato de termos feito tudo de maneira legal nos dá uma grande segurança hoje. Sabemos que eles são nossos filhos e ninguém vai poder mudar isso. Acreditamos muito no trabalho feito pela Vara da Infância de Londrina e nos tornamos defensores da adoção tardia."
Entre a emissão da guarda provisória e da guarda definitiva foram mais três anos. "Neste tempo, sabíamos que dificilmente o juiz não nos daria a guarda definitiva, mas sempre havia uma ponta de receio. Agora não há mais nada disso", comemora Luciana, que como o marido, se emociona ao falar dos filhos. O casal obteve a documentação definitiva como pais de Mateus e Ana Luiza há um mês. (S.L.)





