Câmera filma assassinato em condomínio
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 1999
Marcelo Oliveira Agência Folha 
O síndico do Condomínio Residencial Recanto dos Pássaros, Selsino Gonçalves Souto, 41 anos, matou a tiros o professor José Marques de Souza, 49 anos. Souto fugiu, mas o crime foi filmado pelo circuito interno de TV do conjunto de prédios, situado no Jardim Bonfiglioli, zona sudoeste de São Paulo.
Os dois moravam no bloco D do condomínio e, segundo moradores do prédio e amigos da vítima, divergiam há anos sobre os rumos da administração do condomínio, o que culminou, nos últimos dias, em fax enviados por Souza a Souto criticando sua gestão.
As imagens coletadas pelas 32 câmeras espalhadas pelo prédio mostram que o crime foi premeditado por Souto, que, além de síndico, é proprietário de uma oficina mecânica.
Às 22 horas, segundo o registro que aparece na imagem coletada pela câmera posicionada dentro do elevador do bloco D, onde moravam o síndico e a vítima, Souto aparece carregando uma agenda e um bolo de roupas. Outra imagem, esta colhida na garagem, mostra que Souto leva as roupas para o carro da mulher, Lilian da Costa dos Santos, 40, um Gol vermelho. Em seguida, o síndico, conhecedor dos hábitos dos moradores, volta para o 5º andar, onde morava o professor, e o aguarda no hall. Uma imagem, registrada às 22h04, mostra o professor no elevador. Ele voltava de uma escola de computação em São Matheus (zona sudeste), da qual é sócio.
Em seguida, o professor abre a porta e é puxado para fora pelo síndico, que atira três vezes à queima-roupa, acertando dois disparos na cabeça e um na barriga do professor, que é socorrido por funcionários e moradores do prédio e, mais tarde, é declarado morto no Hospital Universitário, na USP.
Souto tinha uma pistola automática, calibre 380, marca Taurus, cujo porte estava vencido desde abril de 92, mas a polícia não tem certeza se ele usou a mesma arma, já que cartuchos não foram encontrados no hall. As chaves do Gol foram encontradas pela polícia no prédio e apreendidas. Segundo policiais do 93º DP (Jaguaré), apesar do crime planejado, Souto falhou ao provavelmente achar que cometendo o crime no hall não seria flagrado pela câmera instalada no elevador, que acabou registrando os reflexos dos dois vizinhos no espelho.
Parentes de Souto não estavam no prédio. Nenhum advogado do síndico apareceu no 93º DP. A mulher do professor, Leda Marques, foi localizada pela reportagem da Agência Folha, mas ela não deu entrevistas. Segundo o tapeceiro Nelson Pereira da Silva, 52 anos, dono de uma tapeçaria vizinha ao condomínio, e amigo do professor, o Corsa cinza da vítima foi apedrejado na última segunda-feira, destruindo o vidro traseiro do carro. No dia seguinte, ele encontrou meu filho na rua e disse que aquilo era coisa do síndico, mas a Leda pediu para que ele não mexesse mais no assunto, disse.
As 32 câmeras que registraram o homicídio de anteontem à noite no Condomínio Recanto dos Pássaros foram instaladas em dezembro passado, no início do segundo mandato do síndico Selsino Gonçalves Souto, reeleito com ampla maioria dos votos dos condôminos dos 264 apartamentos. Segundo o zelador Mario Moura, Souto já tinha exercido a função por dois anos e fora subsíndico por outros dois. De acordo com Moura, apesar das divergências entre os dois moradores, ele nunca havia recebido reclamações de um ou de outro.


