Quatro dias depois da denúncia feita pela Folha sobre a venda indiscriminada do medicamento Cytotec – indicado para úlceras gástricas e usado para provocar abortos – o produto continua sendo comercializado no camelódromo, na área central de Londrina. Ontem, sem nenhuma dificuldade, a reportagem adquiriu a droga, que só pode ser vendida para hospitais, por R$ 80,00.
Procurada pela Folha, a Polícia Federal informou que vai abrir inquérito para investigar o caso. A Vigilância Sanitária alegou que não faz fiscalizações porque não consegue apreender o medicamento durante blitz.
No sábado, a reportagem mostrou a facilidade para encontrar o Cytotec junto aos camelôs que contrabandeiam o produto do Paraguai. Eles compram a droga em Ciudad del Este por R$ 10,00 a caixa com quatro drágeas e a revendem por R$ 80,00 e até R$ 120,00. Um camelô denunciou que médicos também adquirem o medicamento que é utilizado em clínicas clandestinas onde são feitos abortos.
O delegado-chefe em exercício da Polícia Federal em Londrina, João Luiz do Prado, afirmou ontem que designou uma equipe de agentes para investigar a venda do medicamento no camelódromo. ‘‘Mas temos dificuldades porque esse produto entra em Londrina em pequena quantidade. Não é um carregamento. Normalmente os camelôs trazem por encomenda’’, acredita o delegado.
A Folha constatou que o Cytotec está disponível para pronta-entrega em várias barracas do camelódromo. Apenas alguns ambulantes pedem cerca de 30 minutos para providenciá-lo.
O camelô que vendeu o medicamento à Folha tinha a droga na prateleira junto com outras mercadorias. Ele cortou a embalagem com 20 drágeas e separou quatro comprimidos. Para disfarçar, colocou-a numa caixinha de relógio digital e a guardou dentro de uma sacola. Recebeu o dinheiro, conferiu e perguntou para a suposta freguesa se ela havia entendido bem como deveria utilizar o medicamento. ‘‘Este eu garanto. Não é falsificado. É usar e esperar 24 horas que o seu sufoco chega ao fim’’, afirmou, sem se preocupar com os outros fregueses que olhavam mercadorias na barraca.
O delegado da PF informou que, como as barracas do camelódromo têm alvará da prefeitura para funcionar, as fiscalizações só são feitas quando há denúncias. ‘‘Assim que meus agentes concluírem o relatório de investigações, vamos tomar medidas para coibir a venda do produto por camelôs’’, afirmou.
A enfermeira Giane Zupellari, responsável pelo setor de fiscalização de produtos e serviços em saúde da Vigilância Sanitária (VS), disse que o órgão tem conhecimento da venda do Cytotec por camelôs, mas observou que os fiscais nunca conseguiram apreender o produto durante blitz. ‘‘A nossa conduta nos obriga a nos identificar antes de iniciar qualquer fiscalização. Talvez seja por isso que nunca encontramos o Cytotec no camelódromo’’, justificou.
A última vistoria da VS no camelódromo aconteceu no ano passado. Giane Zupellari também declarou que, para o órgão, a venda do medicamento por camelôs é analisada como uma questão de contrabando. E concluiu: ‘‘Quem tem que cuidar de contrabando é a Polícia Federal.’’

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