Agência Estado
De Brasília
O presidente da Associação Brasileira das Redes de Farmácia (Abrafarma), Aparecido Bueno Camargo, admitiu ontem, em novo depoimento à CPI dos Medicamentos, que ainda pode haver produtos ruins no mercado. Mas não apresentou a relação dos remédios B.O., no jargão comercial ‘‘bom para otário’’. Nervoso, Camargo se disse ameaçado.
Acompanhado por seu advogado, Camargo revelou ontem ter sido seguido e ameaçado em telefonema anônimo depois de ter denunciado a existência de ‘‘porcarias’’ e ‘‘B.Os’’ no mercado. Ele disse que há ‘‘B.Os’’ de boa qualidade, cuja venda resulta em bonificação para o farmacêutico, e outros B.Os de má qualidade. Ele afirmou não ter levado a lista à comissão por não ter provas.
Camargo admitiu que sua rede de farmácias também trabalha com B.Os de bonificação. Em seu primeiro depoimento, afirmou que as grandes redes não faziam isso. ‘‘O bônus é o desconto que o laboratório dá à farmácia e que não é repassado ao consumidor, é distribuído entre o farmacêutico e o estabelecimento’’, disse o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). ‘‘A lógica é ganhar dinheiro com base nos otários’’, completou o deputado.
A bonificação, segundo Camargo, é um mecanismo pelo qual o laboratório dá um desconto e o balconista é remunerado. ‘‘É dada uma contribuição para o balconista, uma cota diferenciada por produto’’, disse. ‘‘O que vendemos são produtos similares com pagamento bonificado’’, explicou Camargo ao deputado Geraldo Magela (PT-DF), que perguntou se ele trabalhava com B.Os.
Camargo disse que os B.Os são registrados no Ministério da Saúde. ‘‘Há produtos que a gente acredita são de má qualidade e são vendidos’’, afirmou Camargo, colocando em situação constrangedora o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVS), Gonzalo Vecina, que falou em seguida à comissão.
Segundo Vecina, a bonificação é ilegal. ‘‘Há práticas que não são legais, como o bonificado’’, disse ele. ‘‘Se fosse comercializar em cima da receita não haveria problemas, mas a prática da empurroterapia leva a indústria a induzir a venda de produtos.’ Ele admitiu que o problema ocorre também por causa da ‘‘falta de fiscalização adequada de Estados e municípios’’.
Vecina foi duramente questionado pelo deputado Salatiel Carvalho (PMDB-PE). ‘‘Se não houvesse registro, as porcarias não estariam no mercado’’, alegou Carvalho. Segundo Vecina, a ANVS só fornece registro a medicamentos que demonstrem eficácia.
Camargo ficou de estudar a proposta de falar mais à comissão em uma sessão secreta. ‘‘Quando falei em B.O não queria ofender o povo, mas alertar o consumidor’’, disse o Camargo.
O relator da CPI, deputado Ney Lopes (PFL-RN) apresentou ontem uma proposta polêmica – de que os consumidores possam comprar medicamentos de uso contínuo ou para doenças crônicas por intermédio dos Correios. Segundo Lopes, deste modo seria possível reduzir em até 40% o preço dos produtos. A proposta de Ney Lopes ainda não tem amparo legal, segundo o presidente da ANVS, Gonzalo Vecina.O presidente da Abrafarma confirmou a existência de remédios ruins no mercado, mas diz não ter apresentado a relação por não possuir provas
Agência EstadoDEPOIMENTOAparecido Camargo, presidente da Abrafarma, disse ontem estar sendo ameaçado após as denúncias que fez à CPI

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